Sete
anos separam este “Raging Light” de seus antecessor, o álbum “Cold Confort”. Talvez
por esse hiato entre um trabalho e outro “Raging Light” tenha se tornado um
disco longo com mais de uma hora de duração, e mesmo que o som desta banda
portuguesa, tenha adquirido contornos muito mais intimistas e progressivos
ainda se encontram as guitarras pesadas e aquela áurea melancólica que é
característica da banda, com partes mais agressivas aqui e ali. O PAINTED BLACK certamente oferece ao ouvindo diversas sensações ao longo da audição deste
trabalho, e eu, particularmente, acredito que a música deve sim, fazer emergir
sensações, sejam elas quais forem.
Desde
vocais limpos e intensos a guturais soturnos e pesados, bateria horas pesada e
contundente, aliadas a passagens que lembram bandas de Post Rock, aliados à um
trabalho de cordas primoroso certamente farão a alegria de fãs de OPETH,
KATATONIA e AMORPHIS. Mesmo que ainda possa ser encontrado muito do Metal
Progressivo em sua música e que soe pesado a maior parte do tempo.
Ao
todo são apenas oito faixas, todas de longa duração, destaque para “Almagest” com seus mais de 17 minutos, que fazem deste um álbum
forte e que exalta a evolução da banda, tanto como grupo, como instrumentistas
individuais e que devem agradar a uma grande parcela dos headbangers pelo mundo
afora, já que é diverso em seu conceito e migra facilmente por diversos
elementos do Metal sem perder a originalidade á que a banda se propõe.
Portugal é um país com um cenário musical bem diversificado.
Mas para a questão do Metal, somente com o crescimento do MOONSPELL na década de 90 que as atenções do mundo se voltaram à
nação pioneira das Grandes Navegações dos séculos XV e XVI. De lá para cá,
muitos nomes surgiram, e é interessante ouvir um trabalho como “Stagma”, primeiro disco do quinteto STAGMA, que embora tenha raízes
lusitanas, é um supergrupo internacional.
A banda nasceu de uma idéia de Alex Santos (guitarrista, prdutor musical e principal compositor do
SCAR FOR LIFE), que juntou forças a Joe Petro (do HEAVEN AND EARTH), Vinny
Appice (o lendário baterista de nomes como BLACK SABBATH e DIO), Neil Fraser (do TEN, RAGE OF ANGELS), e Rob
Mancini (também do SCAR FOR LIFE,
e do BONEYARD DOG). O estilo da
banda é uma forma versátil de Heavy Metal tradicional com um enfoque sonoro
moderno, que é bem agressivo, mas que não nega em momento algum sua vocação
para criar melodias de fácil assimilação e refrãos bem acessíveis. Pesado,
elegante e melodioso, tudo na medida certa, fora uma boa dose de energia.
Apesar de não estar criando uma nova vertente de Metal, o
quinteto sabe ser criativo, verdade seja dita.
As mãos do próprio Alex
Santos cuidaram da mixagem e masterização de “Stagma”, e o trabalho ficou ótimo. A sonoridade está limpa e bem
cuidada, o que é essencial para compreender as melodias do grupo, embora com
timbres instrumentais bem agressivos, buscando valorizar as frequências médias
e graves (para dar aquela pegada moderna da qual se fala acima). Dessa forma, a
sonoridade ficou de primeira, assim como a arte de Zacarias d’Araújo está muito
bela, dando aquele visual que chama a atenção e que dá corpo ao som do
quinteto.
Podemos dizer que “Stagma”
vem para mostrar um trabalho musical diferenciado, onde a energia do Heavy
Metal tradicional com um enfoque moderno se funde a influências de Hard Rock e
Classic Rock para nos brindar com um trabalho esmerado. A qualidade das
composições é alta, graças ao cacife dos integrantes da banda, fora os
convidados que deram um toque a mais de classe ao disco.
As harmonias pegajosas e agressivas de “Pokerface” (onde os vocais estão perfeitamente assentados sobre as
linhas instrumentais bem feitas, e o refrão realmente seduz o ouvinte), as
linhas melódicas bem feitas e de fácil assimilação de “Rocket Machine” (as guitarras estão ótimas, verdade seja dita), o
jeitão mais voltado ao Hard Rock clássico de “Faces in the Mirror”; a balada com um jeito mais introspectivo e
pesado “Gates of Valhalla” (mais uma
vez, as guitarras roubam a cena, com arranjos não muito complicados, mas que
estão bem encaixados na proposta da canção), a dose certa de acessibilidade
musical que se percebe em “Sister Sister”
(onde baixo e bateria mostram-se com boa dose de peso), e as melodias de cair o
queixo que são ouvidas em “Written in
Stone” são os grandes momentos do álbum, embora “Stagma” seja ótimo como um todo.
Podem se viciar no STAGMA,
pois a banda é excelente, e “Stagma”
vem para se candidatar à revelação de 2018. E espero de coração que “To Be Continued” seja um sinal que a
banda pretende seguir carreira!
Do livro sagrado do Metal: os
3 pilares de onde todo o gênero foi criado...
No princípio, apesar dos
sinais evidentes que eram dados, ninguém estava pronto. E eis que o BLACK SABBATH criou o Heavy Metal,
pesado, denso e herdeiro por direito da rebeldia que o Rock ‘n’ Roll trouxe à
música. Ele é o criador.
Não satisfeito, o MOTORHEAD deu início à fusão do peso e
melodia do Metal com a adrenalina e velocidade do Punk Rock/Hardcore, lançando
as bases das vertentes do Metal extremo. Ele é o extremista.
E o terceiro membro desse
triunvirato é o JUDAS PRIEST, o
modernizador, o responsável pela canonização e caracterização do Heavy Metal
como ele o é, e para quem não sabe, é o pioneiro no uso de duetos de guitarra
no Metal, quem trouxe para o gênero esse elemento. E sem o sermão do último, o
gênero não seria o mesmo.
E mesmo com a omissão dos
bangers na votação da banda para ser entronizada no Hall of Fame no ano passado
(favor, tomem vergonha na cara e votem na próxima, ao invés de procurarem
tretas na internet), e após longos meses de ansiedade dos fãs, que absorveram
as canções liberadas para divulgação, eis que os apóstolos do Metal chegam com
seu 18o disco de estúdio, “Firepower”. E como esse disco merece o nome que tem!
Antes de tudo, é preciso
deixar algo claro: se está procurando inovações, ou mesmo algo diferente, pode
esquecer. Em “Firepower”, o grupo
aposta em seu estilo clássico. Mas se faltou um pouco mais de inspiração em
seus discos anteriores, agora ela sobrou, e muito!
Sim, pois não há nada que
seja excessivo ou que falta, tudo está justo em todas as canções. E como de
praxe, a banda está perfeitamente entrosada: Ian Hill (baixo) e Scott
Travis (bateria) estão criando uma muralha rítmica de primeira, esbanjando
peso e com bom nível técnico. O experiente Glenn
Tipton e o jovem Richie Faulkner estão
se entendendo às mil maravilhas, com bases memoráveis, linhas melódicas
preciosas, ótimos solos e duetos de encher os olhos de lágrimas de alegria. E o
mestre Rob Halford mostra que,
diferente de tantos, o tempo o ensina a cada dia, pois como sabe usar bem
timbres diferentes de sua voz (só o que ele faz em “Lightning Strike” merece uma entronização).
Ou seja: “Firepower” na nasceu clássico, e é de longe o melhor disco da
banda desde “Painkiller”.
Tanta inspiração necessitava
mãos experientes para lapidar o que o quinteto estava criando musicalmente. E
unindo o novo ao antigo, estão o experiente Tom “Colonel” Allom (sim, o mesmo que produziu clássicos como “British Steel”, “Screaming for Vengeance”
e “Defenders of the Faith”) e o mago
Andy Sneap (que já trabalhou com TESTAMENT, ARCH ENEMY, ACCEPT, CRADLE OF
FILTH, AMON AMARTH, SAXON, entre outros tantos). Tudo para que o lado
musical mais clássico do grupo pudesse ter uma sonoridade moderna, agressiva e
poderosa. E nisso eles quebram mais uma barreira, mostrando que o Metal
clássico pode ter os benefícios da modernidade sem perder sua essência (e para
os haters que andam por aí, a frase “não gosto” não serve como parâmetro para
nada, logo, melhor ficarem quietos a passar vergonha). E até mesmo a bela capa
transpira os elementos mais conhecidos da banda, remetendo diretamente à tríade
“Screaming for Vengeance”,“Defenders of the Faith” e “Turbo”.
Refrões que não saem da
cabeça, riffs inesquecíveis, solos e duetos fantásticos, solidez e técnica na
base rítmica. Esses são os elementos que as canções de “Firepower” nos mostram, elementos que são bem conhecidos por todos
no trabalho do quinteto. Mas a artilharia pesada do JUDAS PRIEST raramente esteve tão inspirada. O fogo é pesado, e
eles vieram para ensinar que ainda são senhores no que fazem, que ainda possuem
vontade de aço de exercerem sua liderança e mostrar como se faz Metal em alto
nível e de alta qualidade, sem essa de viver de passado.
Musicalmente, “Firepower” possui 14 gemas preciosas
que vieram para marcar o domínio da banda. É um disco irrepreensível, cheio de
energia, mostrando que a velha chama ainda arde poderosa.
O disco abre com “Firepower”, uma faixa com um jeitão
clássico, mas com excelente condução rítmica (como Ian e Scott fazem a
diferença na técnica e equilíbrio de peso e melodia), seguida da maravilhosa “Lightning Strike”, uma chicotada de
energia absurda, onde Rob mostra
como é inimitável em suas variações de timbre (o Metal God realmente aparenta
aprender mais e mais sobre sua voz, e usa-a muito bem). Já “Evil Never Dies” é uma canção mais cadenciada, pesada e com aquela
raçuda que nos agarra (e que solos marcantes, onde Glenn e Richie
mostram-se complementares um do outro). Igualmente refreada (mais um pouco mais
melodiosa) é “Never the Heroes”,
cujo ritmo nos leva a balançar a cabeça, mesmo em suas partes mais limpas. É
dada uma amostra de peso e bom gosto em “Necromancer”,
com suas harmonias pesadas e simples, assim como se ouve também em “Children of the Sun” (que refrão!). Uma
curta instrumental se segue, “Guardians”,
onde pianos, teclados e guitarras, preparando os fãs para o arregaço melodioso
de “Rising from Ruins”, que por sua
alternância entre momentos introspectivos e limpos com passagens pesadas. O
peso moderno da produção dá peso à levada mais Hard Rock de “Flame Thrower”, cuja simplicidade
mostra como se pode ser genial sem ser complicado (e que belo trabalho mais uma
vez da base rítmica). Vinda para esmagar os tímpanos alheios por seu jeito
cadenciado e pesado, “Spectre” é
outra em que a cabeça balança sozinha, e que mostra arranjos excelentes de
guitarras, mesmos elementos apresentados na diversificada “Traitors Gate” (embora esta possua maior dinamismo entre o
instrumental e os vocais, e belos duetos das seis cordas). E por falar em
modernidade e dinâmica, elas se mixam ao jeitão mais tradicional de “No Surrender” (outra que possui certa
acessibilidade musical, mas em que os vocais dão um show, fora esse refrão que
gruda na mente). O peso bate-estaca lento de “Lone Wolf” é extremamente sedutor, já que o refrão é bem marcante,
e as guitarras despejam riffs de primeira (e que duetos). E para encerrar essa
obra-prima, vem “Sea of Red”, uma
balada que até a metade é toda em guitarras limpas, permitindo que a
versatilidade de Richie e Glenn (especialmente nos solos), mas é
impossível não bater palmas para o trabalho peso-pesado de Ian e Scott nas partes
mais pesadas, enquanto Rob usa um
enfoque mais simples e normal de sua voz.
Infelizmente, é fato que o
guitarrista e membro fundador Glenn
Tipton deve ter gravado seu último disco, já que foi diagnosticado com Mal
de Parkinson, e Andy Sneap tem
tocado suas partes ao vivo. E isso tem causado especulações se a banda não
encerrará suas atividades depois do último show da turnê.
Seja como for, “Firepower” mostra que o JUDAS PRIEST, se parar, encerra sua
carreira de forma magistral; se decidirem continuar, nos mostra que o JUDAS PRIEST ainda tem muita lenha para
queimar, e muitas lições a dar aos novatos sobre como ser relevante e se
atualizar sem perder seu próprio estilo.
E este autor endossa o coro
de muitos fãs e colegas de imprensa: “Firepower”
estará no topo da lista dos melhores de 2018, se não for O Melhor disco
do ano.
Infelizmente, esta data representa uma grande perda para o Metal brasileiro: o guitarrista Fabiano Penna, do REBAELLIUN, veio a falecer, devido à uma infecção generalizada.
Além do REBAELLIUN, Fabiano ainda era produtor musical, bem como teve passagem por bandas como THE ORDHER e HORNED GOD.
Acreditamos que nada termina aqui, logo, queremos agradecer pela enorme oportunidade de poder ter conhecido Fabiano, ter conversado e partilhado idéias. A amizade é para sempre, o amor não vai parar aqui.
Apresentamos nossos votos de pesar a familiares, amigos e todos que puderam ter contato com essa pessoa maravilhosa, que vai fazer falta, e que agora descansa em paz...
Obrigado, meu amigo, meu irmão, e que sua música continue a nos alegrar até o dia em que nos encontremos de novo...
Quando uma banda qualquer se torna auto-sustentável (ou
seja, são aquelas que já conseguem sustentar financeiramente a si mesmas e seus
músicos com seus trabalhos), é de se esperar que todos os discos lançados após
seu crescimento sejam aguardados ansiosamente por fãs e detratores. Nomes
grandes como o do DIMMU BORGIR
sempre criam expectativas. E após 8 anos desde “Abrahadabra”, o grupo enfim volta com algo inédito de estúdio para
seus fãs, O Single “Interdimensional
Summit”, que precede “Eonian”,
novo álbum previsto para 04 de Maio vindouro.
O que podemos falar sobre este Single, lançado para
esquentar as coisas?
O que se nota logo de cara é que a banda deu seqüência ao
que fez musicalmente em “Abrahadabra”.
A proposta não mudou: a fusão de elementos agressivos do Black Metal com
orquestrações grandiosas e corais é a mesma. Mas há uma diferença: a banda
reforçou o lado melodioso de sua música, bem como fizeram nada muito
tecnicamente complicado. No fundo, esta simplicidade é algo que não fazem desde
a época de “Enthrone Darkness Triumphant”.
Dessa forma, a idéia é de que o DIMMU
BORGIR parece disposto a continuar com seu trabalho com orquestras e
corais, mas buscando algo mais simples em termos técnicos. E isso mostra valor,
já que o lado agressivo de sua música ainda está ali.
Sonoramente, este Single nos mostra uma sonoridade pesada e
densa, mas mais uma vez, de qualidade inegável. O grupo há anos não abre mão de
ter uma qualidade sonora perfeita em seus trabalhos. E não deve ter sido
simples, pois misturar tantos elementos de uma vez nunca é muito simples, mas
conseguiram, pois tudo está perfeitamente audível.
Diferentemente de “Abrahadabra”,
onde a banda parecia muito mecanizada, desta vez, eles mostram maior fluidez e
espontaneidade. Talvez a simplificada no som e a ausência de estresses e
pressões (algo que em 2010 foi comum, pois a saída de Mustis e Vortex foi
traumática) tenha feito muito bem à banda. Mas se repararem, há muito detalhes
interessantes que uma simples ouvida não nos permite perceber.
Uma das músicas do Single é a já conhecida “Puritania”, gravada ao vivo em Oslo
(provavelmente, vinda do DVD “Forces of
the Northern Night”). Mas “Interdimensional
Summit” é a inédita. Cheia de teclados e muitas orquestrações, existem
arranjos e mudanças de ritmo ótimas, os vocais continuam com sua ótima variação
entre timbres rasgados e guturais (além de momentos narrativos), a bateria
mostra peso (embora não mostre técnica exacerbada), as guitarras estão ótimas
em seus riffs (e o solo está ótimo, nada complicado, mas bem melodioso), o
baixo dá peso (pelo que se sabe, Shagrath,
Silenoz e Galder se alternaram
nas gravações do instrumento). As orquestrações e corais encaixaram bem, e mais
uma vez, a banda mostra um refrão que se ouve e não se esquece mais, além de
melodias simples e envolventes.
Óbvio que nem todos gostaram dessa roupagem que a banda mostra
em “Interdimensional Summit”.
Direito de todos, mas a verdade é simples: o grupo não dá crédito aos
detratores. Nem precisam, pois fazem o estilo que eles mesmos criaram para si,
e como dito acima, creio que muitos não se lembram dos teclados e lindas
harmonias do clássico “Enthrone Darkness
Triumphant”.
No mais, este Single coloca água na boca dos fãs. E que “Eonian” venha logo!
A potencialidade do Metal brasileiro já deixou de ser uma
simples idealização. Há anos, com o avanço tecnológico e a profissionalização
de produtores musicais, as bandas nacionais têm mostrado as garras, fazendo
discos cada vez melhores. Em termos que qualidade, o Brasil já não está
distante do que é feito fora de nosso país. E nisso, as bandas consegue atingir
um nível musical melhor. Uma ouvidinha em “Pesadelo”,
novo trabalho do quarteto LOCKFIST 669,
de São José dos Campos (SP), ilustra o que este autor quer dizer.
Com um trabalho pesado e agressivo de causar dores nos
ouvidos, o quarteto foca suas energias em fazer Thrash Metal com uma pegada
moderna próxima ao Death Metal. Óbvio que essa fórmula musical não chega a ser
uma novidade, mas a abordagem deles deixa tudo mais bruto, com um impacto
sonoro enorme. Além disso, a banda cria arranjos musicais de primeira, que
encaixam perfeitamente uns nos outros.
Preparem os ouvidos e o pescoço!
Podemos dizer que grande parte do impacto descrito acima vem
da produção musical. A sonoridade de “Pesadelo” é cheia e carregada, ou seja, a
banda escolheu timbres graves e intensos para os instrumentos, criando a
impressão de uma muralha de som. Mas ao mesmo tempo, em termos de clareza, tudo
está de primeira, bem definido, e o ouvinte não terá dificuldades em
compreender o que eles tocam. Além disso, a masterização deu um “punch” a mais no som. E que arte gráfica!
Os 13 anos de lutas no underground moldaram o LOCKFIST 669 de
uma maneira que observemos uma banda evoluída e enxuta, que sabe criar uma
música bem arranjada e violenta, bem feita, mas com muita energia e espontaneidade.
Além disso, “Pesadelo” é um
autêntico murro nos ouvidos!
“Shall
Not Murder” é um Thrash/Death Metal moderno e cheio de agressividade
envolvente, com guitarras cuspindo riffs ganchudos. O andamento mais trabalhado
de “The Problem Of Evil” vem para
conquistar muitos fãs (os momentos mais lentos são cativantes, especialmente
porque baixo e bateria mostram uma técnica muito boa). O peso grooveado e cheio
de ritmos quebrados de “Silencer” é
empolgante, mostrando um refrão muito bom (e esses vocais gritados encaixaram
como uma luva). Cadência e uma ambientação densa é o que temos em “Dominion”, uma faixa de muita energia
e peso. Essas são os destaques do disco, mas não dá para não falar da versão rasgada
e pesada que eles fizeram para “Igreja”,
do TITÃS, que tem a participação
especial de Friggi Madbeats, do CHAOS SYNOPSIS (e produtor do disco),
que tocou bateria.
O LOCKFIST 669 é
um bom nome do cenário nacional, e “Pesadelo”
merece uma ouvida atenta da parte de todos os fãs de Thrash Metal.
Há dias em que este autor para e reflete: em mais de 30 anos
dedicados ao Metal, poucas vezes vi um momento tão ruim em termos de
mentalidade dentro do cenário.
A mentalidade atual é destrutiva, quase que orientada à automutilação,
à destruição interna de cada um de nós. Sinceramente, já está cansativo ver as
repetições das fábulas à lá “Dungeons
& Dragons” e mitologia de J. R.
R. Tolkien, os temas de críticas sociais (que muitas vezes possuem uma
orientação política, e o homem em si é deixado de lado), ou a infantilidade do
paganismo/satanismo que muitos teimam (sinceramente, falar nesse tipo de coisa é
admitir que não tem mais o que dizer).
Onde foi parar a força positiva que sentíamos nos anos 80 e
90? E quando foi que o Metal virou um velho senil que repete a mesma ladainha
chata? Onde foram parar as criticas legais e bem feitas de bandas como RUNNING WILD, HELLOWEEN e GAMMA RAY (pois Kai Hansen sempre teve um alto astral que transpirava em suas
músicas e letras)? Se não fossem nomes como GOJIRA, e alguns poucos, que realmente têm algo construtivo a
dizer, o Metal já estaria usando um Papa Nicolau há anos. E no Brasil, há um
representante digno dessa positividade construtiva: o trio KAMALA, de Campinas (SP). E dois anos após “Mantra”, e precedido pelo ótimo EP “Consequences Of Our Past - Vol 1”, eles nos brindam com mais um
discão: “Eyes of Creation”.
A banda teve uma mudança na formação: saiu o baterista Estevan Furlan, e em seu lugar, entrou Isabela Moraes, que manteve a pegada Thrasher da banda intacta. E musicalmente, o KAMALA está mais amadurecido, com uma
agressividade mais enxuta (como se pode ouvir em “Fractal” e “The Seven
Deadly Chakras”) e uma noção melodiosa bem mais apurada. Óbvio que a
brutalidade da banda diminuiu, mas esse lado mais encorpado é mais uma bela face
da musicalidade do trabalho deles que é exposta. O trabalho técnico continua
vibrante, mas emoldurada por aquilo que cada música pede. Não há excessos, mas
ao mesmo tempo, não é algo simplório.
Traduzindo: “Eyes of
Creation” é um passo adiante, olhando para o futuro de cabeça erguida e
olhos abertos.
A sonoridade do disco ficou bem mais seca e direta, com
timbres instrumentais mais bem definidos. Tudo para que as músicas soem claras
e compreensíveis aos nossos ouvidos, ao mesmo tempo em que as melodias ficaram evidenciadas.
Mas mesmo assim, há um toque “alive”, já que durante os solos, não existem
linhas de guitarra base sob eles. Um trabalho ótimo, digamos de passagem. E a
arte é muito bonita, com tons não comuns na capa, e uma diagramação inteligente
no encarte.
Se “Mantra” é um
disco brutal e com muitos toques de Death Metal, “Eyes of Creation” é mais espontâneo, melodioso e burilado. Os
refrões são de assimilação fácil (mesmo em um formato musical tão agressivo), e
existem toques experimentais e diferenciados, como a participação de harpas (em
“Internal Peace”), mais uma vez o
som de didgeridoo é ouvido (em “Purpose
in Life”). Partes acústicas também enriquecem o disco, logo, se preparem,
pois o KAMALA está com fome de fazer
música!
Nove torpedos compõem o repertório de “Eyes of Creation”, todas com suas belezas e particularidades.
O começo de “Internal
Peace” é suave, com guitarras acústicas melodiosas, mas logo vem toda fúria
Thrasher do trio, com tempos excelentes, refrão grudento e um trabalho muito
bom de baixo e bateria. Já usando de um “insight” um pouquinho mais técnico,
temos “Stay With Me”, com ótimos
tempos e riffs (daqueles cheios de groove moderno). E falando em modernidade, “Open Door” mostra uma ambientação mais
abrasiva, e com excelente trabalho dos vocais (os dois vocais ficaram bem
encaixados, complementando um ao outro em um contraste muito agressivo). Já em “Something to Learn”, temos algumas
passagens mais acessíveis, vindas de influências mais melódicas do grupo, e que
encaixaram como uma luva no trabalho da banda. O som de didgeridoo é ouvido no
início de “Purpose in Life”, outra
em que o peso se baseia em um andamento denso e pesado (reparem como as
narrativas com efeitos reforçam o peso azedo da canção). Melodias cheias de
groove e transpirando modernidade são os elementos da ótima “Believe” (outra com um trabalho
excelente de baixo e bateria), os mesmos elementos que permeiam “Deep Breath” (onde se ouvem partes
experimentais, e a bateria é tocada por Marcus
Dotta). Mesmo mostrando uma agressividade rasgada e evidente, “Eyes of Creation” é outra canção onde
melodias acessíveis aparecem, e são daquelas que qualquer fã de Metal pode
assimilar facilmente. E fechando, cheia de melodias mais introspectivas, e com uma
ambientação densa, temos “Wake Up”, o
perfeito encontro de linhas melódicas bem estruturadas e um toque de
agressividade moderna (reparem bem nas guitarras e vocais). E por trás de cada uma das músicas, letras que visam construir, protestar, mas sempre com uma ótima positiva.
Em “Eyes of Creation”,
o KAMALA mostra que é mais uma banda
cuja música não cabe mais no Brasil. E a banda já se prepara para mais um giro
pelo Velho Continente!