Discos lançados: “Defiled Corridors of Ruptured Oblivion” (EP)
Formação atual: Bruno Schmidt – Vocais, guitarras, programação de bateria
Cidade/Estado: Curitiba - PR
BD: Como a banda começou? O que o incentivou a formar uma
‘one man band’?
Bruno Schmidt: Olá, primeiramente obrigado pela oportunidade
de estar no Heavy Metal Thunder! Olha sempre toquei em outras bandas de metal,
mas o DIVULSOR começou a tomar forma eu compus riffs mais velozes e queria gravar
e tocar ao vivo, mas todos sabem da dificuldade em manter uma formação fixa em
banda. Não penso como sendo uma one-man-band na verdade, mais como Death Metal
mesmo.
BD: Falem um pouco sobre este atual EP. Como foi feita a
parte de composição, gravação e lançamento?
Bruno: A composição do EP “Defiled Corridors of
Ruptured Oblivion” foi um apanhado de ideias antigas e novas, cada riff me vem
na cabeça com uma bateria específica e então monto tudo. Gravação acabou
tomando um pouco mais de tempo que pensei, mas não será o caso do full length que
está por vir esse ano. Lançamento por enquanto somente a Sevared Records nos
EUA lançou o EP, mas creio também que pro próximo trabalho a distribuição será
um pouco maior.
BD: Quais as maiores dificuldades que está enfrentando no
cenário?
Bruno: Bem as dificuldades são as coisas dos
underground, que é o que todos conhecem, mas não me queixo muito porque todos
tem sido bem receptivos com o DIVULSOR, nos lugares que vou tocar e as pessoas
não conhecem o som, mas acabo recebendo bastante apoio e o público tem gostado.
As dificuldades também são aquelas coisas do país, estradas ruins, correios
péssimos, com atraso de envio, essas coisas.
BD: Como estão as condições em sua cidade em termos de
Metal/Rock? Conseguem tocar com regularidade? A estrutura é boa?
Bruno: Olha aqui em Curitiba tem poucos lugares na
verdade, antigamente tinham mais casas, tenho tocado com alguma frequência, mas
tenho tocado mais em outras cidades do que aqui.
BD: Hoje em dia, muitos gostam de declarar o fim do Metal,
já que grandes nomes estão partindo, e outros parando. Mas e você, como encara
esse tipo de comentário?
Bruno: É triste ver nomes grandes e importantes se
aposentando ou integrantes morrendo, sou curioso para saber quais serão os
nomes que estarão tocando daqui a vamos dizer, 20 anos. Morrendo não está, na
verdade vejo que o metal nunca esteve tão popular quanto hoje.
BD: Em termos de Brasil,
o que ainda falta para o cenário dar certo? Qual sua opinião?
Bruno: No Brasil
o Metal se vira do jeito que pode, antigamente era tudo mais difícil, hoje
estamos muito mais na rota de shows, temos disponibilidade de equipamentos
melhores. Tem muita pilantragem e preguiça de investir em qualidade de
estrutura eu vejo, e os problemas corriqueiros do país agravam tudo isso.
BD: A banda já trabalha em um novo álbum certo? Fale um pouco mais dele para os
nossos leitores.
Bruno: Bem no momento as demos estão terminadas e
será um disco de curta duração, em torno de 30 min, mais brutal e não vejo a
hora de apresentar essas músicas novas.
BD:Além deste novo
material, quais são os projetos futuros da banda?
Bruno: Olha, a prioridade do DIVULSOR é fazer shows
e permanecer dentro do circuito Death Metal.
BD: Deixe sua mensagem final para os leitores.
Bruno: Mais uma obrigado pelo espaço concebido no
Heavy Metal Thunder Brasil, aos leitores que forem curiosos em ouvir, o som do DIVULSOR está disponível nas plataformas online, adquirir em formato físico do
EP comigo e interesse para shows também é só entrar em contato. Valeu pela
força e pelo apoio às bandas autorais aí.
O que poderíamos, em um cenário musical em que a inovação é
quase que um pecado mortal (tendo em vista o número absurdo de bandas retrô que
surgem todos os dias), definir como uma banda que se diferencia?
Em uma aproximação de caráter subjetivo, poderíamos dizer que uma banda
desse tipo é aquela que transcende os rótulos, aglutinando influências musicais diversificadas, e que assim é capaz de recriar-se conforme o tempo passa, e se colocar acima daquelas que apenas repetem fórmulas musicais já erodidas. A criatividade não se faz
em cima de clichês musicais exauridos, mas em algo que tenha frescor, que vem da alma do músico e nos dá aquela
sensação de novidade. E isso é algo para os que sabem ousar, aqueles que não
têm medo de reações adversas e narizes torcidos. Dessa maneira, chegamos à conclusão que o sexteto carioca IMAGO MORTIS é um gigante em termos de ser criativo, e comprovando
isso, eis que após 12 anos de espera, eles acabam de soltar “L.S.D.”, seu mais novo trabalho.
Mais uma vez, o grupo usa de um conceito único em suas
letras: a sigla L.S.D. significa “Love, Sex and Death”, uma alusão às
substâncias químicas que provocam a “paixão”. Na realidade, o romantismo aqui é
tratado de uma forma totalmente poética e subjetiva, embora adornada com
pensamentos que rementem à filosofia de Platão, Schopenhauer, e Nietzsche,
bem como estudos da antropóloga Helen E.
Fisher, algo do tantrismo, e mesmo reflexões pessoais sobre o amor, a
morte, a vida em si, e como a espiral formada por esses três elementos nos
envolve cotidianamente. Realmente algo bem papo-cabeça.
Só que estamos falando de música, e isso, o IMAGO MORTIS sempre tem o que mostrar.
Definir o trabalho deles como Doom Metal é ser displicente, já que são tantos
elementos aglutinados que remetem à New Age, Bossa Nova, Jazz, ao Rock
Progressivo, juntamente com influências de Metal moderno, estilos extremos de Metal e tantos outros que fica
difícil tentar pôr um rótulo único. Se podemos aferir algo nesse sentido, temos aqui uma abordagem eclética e moderna de Doom Metal. Por isso, a
melhor coisa a fazer para começar a compreender o que “L.S.D.” musicalmente é fugir de qualquer tipo de limitação. Digamos
que o impacto criativo desse álbum é tão grande como o que conhecemos de “Vida - The Play of Change”, e que ora
soa vigoroso, forte e pesado, ora mais denso, melancólico e introspectivo. É
uma autêntica viagem, e meus caros: que disco!
Sim, “L.S.D.” é
formidável, um desafio que merece ser encarado de peito aberto.
A produção é do Alex
Voorhees, e o trabalho que ele teve não foi simples, pois a sonoridade de “L.S.D.” é digna de muitos discos
gringos, com tudo soando audível, sem que detalhe algum fique escondido de
nossos ouvidos, mas com energia e muito peso. A timbragem dos instrumentoscontribuiubastante já
que ela soa cristalina nos momentos mais suaves; e pesada quando o grupo cai
para o lado mais agressivo de sua personalidade. Tudo feito com esmero e
cuidado para que o grupo posso ser compreendido em sua totalidade (o que não é
simples).
A arte gráfica, muito bem trabalhada, é do veterano artista Alcides Burn, que mostra inspiração e
segue a ideia do conceito à risca. No encarte, tudo muito simples em termos de
texturas de fundo, mas sabendo usar os tons escuros de vermelho e preto para prender
a atenção do ouvinte.
Se já temos dificuldade de rotular o que IMAGO MORTIS faz, quanto mais o disco
vai tocando, mais se percebe que, musicalmente, o álbum está longe de ser simples de ser assimilado. Uma audição
apenas não é suficiente para absorver tantos detalhes e ecleticismo, embora também
não chegue ao minimalismo soporífero de muitos (Não tem nada a ver com técnica musical
exacerbada, mas com riqueza de arranjos). Longe disso, as canções de “L.S.D.” prendem completamente nossa
atenção, graças a belas linhas melódicas que se distribuem por todas as canções
do álbum, e a harmonias bem construídas.
Com mais de 13 minutos de duração, a gigantesca “The LSD Theorem” abre o disco,com muitas partes percussivas e com
belas cordas (quase um ritual hindu tântrico) que chega mostra uma canção rica
em andamentos e com belíssimas mudanças de timbres vocais (as partes interpretativas
são belíssimas). Misturando teclados jazzístiscos com partes brutais e outras
mais técnicas, bumbos velozes e alguns tempos quebrados, temos “Binary Viscerae”, onde muita
influência de estilos mais modernos de Metal extremo dão as caras. Os mesmos
elementos podem ser ouvidos em “Hieros
Gamos”, embora seja um pouco mais simples e focada na agressividade (e onde
baixo e bateria se destacam em uma base rítmica sólida). Mais introspectiva e
bela, “Incantation” possui belos
duetos de guitarras, além de pianosbem
encaixados. Também bem sensível e cheia de melodias caprichadas é “The Promise”, onde temos a
participação especial de Julia Crystal,
cantora deNew Age que empresta seu
talento para criar lindos duetos vocais. “Two
Headed Chimaera” rebusca o contraste de partes melodiosas e pesadas com
momentos brutais, e outra onde temos excelentes duetos vocais, dessa vez com a
presença de Mari Elbereth Figueiredo
(ex-vocalista do MELYRA, e atual CHRONICODE). Em “A Farewell Kiss”, surgem aquelas linhas mais etéreas e pesadas
comuns às bandas de Doom Gothic Metal, mas logo o peso dos andamentos mais
lentos do Doom Metal se impõe, mas sempre adornados com guitarras fantásticas e
teclados bem encaixados. Curta e beirando o Thrash Metal, “Black Widow” é outra canção marcada por uma simplicidade técnica
mais evidente, mas que é genial (e mais uma vez, o peso criado por baixo e
bateria é de primeira). A longa e densa “Alone”
tem um enfoque belo e introspectivo, e aquele leve toque de melancolia dado
pelos teclados que é uma das marcas registradas do sexteto (e que solos de
guitarra). “Exile” é curtinha, uma
instrumental de pianos e teclados que antecede “Epitáfio de Um Amor”, declamada em português, é um poema quase
filosófico permeado por orquestrações e alguns arranjos de guitarras
providenciais, mas sem quebrar o clima soturno. E “Love Sex and Death (Theme)” alterna partes mais melancólicas e
intimistas (onde o baixo debulha na técnica) com outros mais grandiosos, onde
teclados preenchem os espaços e a bateria mostra-se muito pesada (e nas partes
agressivas, com vocais gritados, as guitarras tecem belas linhas melódicas).
Desta forma, a nova encarnação do IMAGO MORTIS se mostra vigorosa e criativa como as anteriores. Logo,
“L.S.D.” é um dos grandes discos do
ano de 2018, logo, merece estar na coleção de qualquer fã de Metal que se
preze. E conforme for sendo assimilado pelos fãs, é um candidato a seguir os passos de “Vida - The Play of Change”: se tornar um clássico do Metal nacional.
Existem momentos na carreira de uma banda em que mudanças
ocorrem, justamente para mostrar o amadurecimento dos seus integrantes. Esta é
uma força que não pode ser contida, logo, o melhor é que se abrace e deixe que
ele (o amadurecimento) faça sua parte. E sendo guiado por sua identidade
forjada a ferro e fogo, mas com a evolução a seu lado, o quarteto sueco MARDUK chega com mais um assalto
musical, seu décimo quarto disco de estúdio, “Viktoria”.
Musicalmente, “Viktoria”
nos mostra o quarteto explorando elementos musicais de seu passado, da época de
discos como “Opus Nocturne” e “Heaven Shall Burn... When We Are Gathered”,
ou seja, aquela agressividade intensa e brutal de sempre, mas com alguns momentos
não tão velozes e extremos como de costume (“Werewolf” é um ótimo exemplo disso). Mas óbvio que ataques com velocidades
estonteantes estão presentes, além de músicas bem cadenciadas e opressivas. E
não, o MARDUK não mudou seu “insight”
lírico, continua explorando temas satânicos e históricos que causam desespero
nos SJW e adeptos do politicamente correto (embora não haja nada errado com
esse tipo de letra). Mas é preciso dizer que a experiência do grupo continua
dando aquela diferenciada entre o grupo e muitos outros. O quarteto possui
identidade, e ponto final.
Sim, “Viktoria” é
mais uma gema preciosa na discografia da banda.
Gravado mais uma vez nos Endarker Studios, tendo os próprios integrantes cuidando da
produção, mixagem, masterização e engenharia sonora, este disco tem uma
produção mais bem cuidada que muitos fãs mais extremistas gostariam, mas a
sonoridade mais bem delineada permite que o quarteto se expresse muito melhor musicalmente.
Tudo está claro aos ouvidos, com timbres ótimos, mas bem pesado, e com a
agressividade e energia fluindo pelos falantes.
Já em termos de arte gráfica, a capa é uma das mais simples
que a banda já teve, se não for a mais simples. Mas é essa a ideia: usando uma
imagem mais direta (que foi trabalhada por Mortuus),
inspirada pelos pôsteres da Reichspropagandaleitung
de do Office of War Information, ela
fixa em nossa memória quase que instantaneamente.
E pode-se aferir que “Viktoria”
é um disco maduro. Vemos que Mortuus
está cantando de maneira formidável, usando muito bem de todos os timbres de
voz que possui (indo de tons rasgados a outros mais urrados sem problemas), bem
como a massa rítmica criada por Devo
(baixo) e Widigs (bateria) é sólida
e técnica, guiando bem os tempos da banda. E Morgan continua sendo um dos melhores guitarristas de Black Metal
de todos os tempos, um mestre com riffs excelentes e que são de fácil
assimilação. Aliado ao talento de cada um de seus membros, existe a inspiração
em termos musicais, sendo arranjar as canções de maneira sóbria (e nenhuma
delas ultrapassa muito dos 4 minutos de duração), mas sempre criativa e de bom
gosto.
As sirenes de ataque aéreo dão início à sinistra “Werewolf”, uma canção brutal, mas onde
a velocidade não é exacerbada, com um trabalho instrumental simples, além de ótimos
vocais. Já mais veloz e na pegada tradicional do grupo, temos “June 44”, os vocais alternam bastante
de timbres, seguindo as mudanças de andamento (que destacam o ótimo trabalho de
baixo e bateria). Em “Equestrian
Bloodlust”, outra com um jeito mais tradicional da banda em termos de velocidade,
onde as guitarras reinam supremas em seus riffs certeiros. Mais cadenciada e
densa é “Tiger I”, com uma energia opressiva
e cativante, e uma aula de interpretação dos vocais. Rapidez e impacto é o que
temos em “Narva”, outra aula de
riffs e arranjos fenomenais em termos de guitarras. “The Last Fallen” mostra alternância entre partes mais lentas, outras
mais tradicionais em termos de Black Metal (aquelas em que as guitarras criam
uma atmosfera muito soturna), e outras muito rápidas,e percebe-se ótimo trabalho de bateria, especialmente nos dois
bumbos. O baixo pulsa bem evidente em muitos momentos de “Viktoria”, especialmente nas partes mais cadenciadas, outra
canção impactante e que funcionará bem ao vivo. Outra que fará a alegria nas
apresentações ao vivo é “The Devil’s
Song”, veloz, direta e seca, mas mostrando ótimos arranjos de guitarras. E
fechando, temos a sinistra e lenta “Silent
Night”, que vem para triturar os ossos, mais uma vez com os vocais fazendo
um trabalho ótimo, com timbres muito bons.
“Viktoria” mostra
como a máquina de guerra Black Metal chamada MARDUK está azeitada e pronta para tomar de assalto o mundo
inteiro. E assim, vai preparando os fãs para a “March of Blood and Iron Tour”, a próxima turnê deles na América do
Sul em setembro e outubro próximos. Até lá, ouçam mais e mais esse disco, onde
o grupo mais uma vez para estar entre os grandes destaques do ano.
Quando se falar em Classic Rock (ou Hard Rock), poucas
bandas jovens podem dizer que têm o estilo no sangue. Esse estilo requer profundo
conhecimento de causa, e nisso, verdade seja dita: o quinteto THE DEAD DAISIES é imbatível. E o novo
disco da banda, “Burn It Down”, vem
para comprovar isso. Ainda bem que a
Shinigami Records lançou mais esta joia do grupo por aqui.
O quarto trabalho de estúdio da banda tem uma novidade: nas
baquetas está o lendário Deen Castronovo,
conhecido músico que já passou pelo JOURNEY
e pelo BAD ENGLISH. E musicalmente,
a banda continua destilando aquele Hard Rock vigoroso e sujo, cheio de ótimas
melodias de simples assimilação, refrãos muito bem construídos (bateu no
ouvido, gamou, simples assim), e uma musicalidade que embora não prime pela
técnica, é ótima. A única coisa que soa diferente aos seus discos anteriores é
que o grupo parece ainda mais coeso, e sabendo usar muito bem o talento
individual de cada um de seus músicos.
Em termos de sonoridade, o grupo mais uma vez soube manter
os elementos de sua música exclusivamente nos instrumentos, usando uma gravação
clara e que consegue captar o feeling de suas músicas. Óbvio que está denso e
pesado, mas muito bem definida em termos de instrumentos. Nada soa
excessivamente sujo ou excessivamente polido, tudo na medida certa. Além disso,
a arte gráfica da banda, como sempre, pega os elementos visuais mais clássicos
do gênero e cria algo que é a cara do quinteto: despojado e livre de concepções
comerciais.
O THE DEAD DAISIES
é algo arrasador quando se ouve, pois a espontaneidade de suas canções é
evidente, algo descompromissado. E justamente por ter todo esse carrego setentista,
livre de grandes ideias revolucionárias, que é apaixonante. Esse Hard Rock
clássico, preenchido de influências bluesy (muito graças aos vocais de John), ganha uma roupagem nova, e soa
com vida e energia sempre.
Não, não tem como destacar uma música ou outra como “as
melhores”. O grupo parece ser capaz de gerar músicas excelentes de forma
infinita!
As belas melodias setentistas de “Resurrected” (reparem nos solos carregados de “wah-wah” e puro feeling),
o peso selvagem e ritmo denso de “Rise Up”
(como a base rítmica está pesada, e com boa técnica em termos de baixo e
bateria, e que refrão maravilhoso), o jeitão bluesy à lá Mississipi de algumas
partes de “Burn It Down” (até hoje,
nunca entendi como o MOTLEY CRUE não
ficou com John, pois como a voz dele
é cheia de nuances fenomenais), o feeling intimista sedutor que se alterna com
momentos agressivos em “Judgement Day”
(uma aula de espontaneidade, com riffs e solos são fantásticos), a psicodelia
pesada e opressiva dos tempos de “What
Goes Around”, o ritmo quase tribal e de simplicidade técnica de “Bitch”, as passagens mais carregadas
de melancolia bluesy “noir” de “Set Me
Free” (sim, eles sabem usar muito bem esse recurso, e temos uma balada
linda, bem construída e cheia de melodias de primeira, com os vocais dando um
sabor especial à canção), a fogosa e com aquele jeitão AC/DC“Dead and Gone” (ou
seja, uma energia sem tamanho criada por uma música simples), o murro Hard Rock
à lá LED ZEPPELIN de “Can’t Take It With You”, e a
destruidora de tímpanos “Leave Me Alone”
(um hardão colossal, com uma energia absurdamente empolgante, apoiado em uma
base rítmica pesada, guitarras densa e vocais de primeira). E, além disso, a
versão nacional ainda nos trás o Hard ‘n’ Roll grudento que o quinteto fez de “Revolution”, canção do THE BEATLES.
Do jeito que o THE
DEAD DAISIES é, vai ser mais fácil a banda acabar do eu lançarem um disco
ruim, então aproveitem “Burn It Down”,
ouvindo no volume máximo!
A agressividade musical é, basicamente, o componente mais
forte do DNA do Metal brasileiro. O percentual de bandas que transitam pelos
estilos mais extremos de Metal por aqui não é pequeno, deve ser de
aproximadamente 70-75% do total. Mas o interessante é que muitos preferem fazer
a coisa a seu modo que apelar a modelos já bem determinados em termos musicais.
E o quinteto LETHAL STORM, de
Campinas (SP) segue este rumo, como seu primeiro álbum, “Manipulated Minds”, deixa bem claro.
Podemos dizer que eles seguem uma via mais tradicional de
Death metal, tendo por base bandas como SUFFOCATION
e DEICIDE, mas incorporando à sua
música grandes e claras doses de Thrash Metal moderno, o que lhes afere um
toque técnico e fluido muito bom. Só que estas palavras de forma alguma despem
o trabalho deles de identidade ou valor. Pelo contrário: o grupo prefere fazer
sua música com o coração, escrevendo suas harmonias em uma visão bem pessoal. É
agressivo, pesado, mas bem tocado, e bem feito. Ah, sobre a energia, não se
preocupem: é de dar dores no pescoço de tanto que incita o “headbanging”.
Preparem-se, pois “Manipulated
Minds” é uma bicuda de coturno nos ouvidos!
Sonoramente, o grupo conseguiu um bom nível, com uma escolha
muito boa para os timbres instrumentais (algo mais seco e definido), fazendo
com que a agressividade atinja níveis absurdos. Mas ao mesmo tempo, as canções soam
pesadas e claras, permitindo que tenhamos acesso ao melhor de sua música. E
isso sem mencionarmos que a arte gráfica de capa e encarte reforça o clima
denso e bruto de suas canções.
Bruto e cheio de energia, mas ao mesmo tempo grudento e
envolvente, o trabalho do LETHAL STORM
chega em boa hora, deixando claro que se pode fazer algo de ótimo nível nas
condições adversas de nosso país. Além disso, o quinteto soube arranjar muito
bem suas composições, evitando assim que suas músicas soem repetitivas. E a
influência Thrasher nos leva a ficarmos envolvidos por estas 11 canções bem
feitas.
Destaques: o açoite de brutalidade infligido por “Manipulated Mind” (ótimo trabalho
técnico de baixo e bateria, com boas mudanças de ritmo), a tempestade de peso e
riffs de guitarra insanos que se ouve em “As
Another Day Begins” (essa dupla de guitarras promete coisas boas para o futuro,
e sem mencionar os vocais mais guturais bem encaixados), o ritmo mais lento e
denso de “Psychopath” (outra em que
as guitarras fazem bonito, especialmente pelos riffs cortantes e solos doentios
à lá King/Hanneman), o soco nos
dentes feroz e rápido chamado “Chemical
Slave” (baixo e bateria mostrando força mais uma vez), a brutalidade
opressiva de “Disorder”, a opressão
imposta pelos ritmos alternantes de “Violence”
(os vocais estão ótimos, como no disco todo), e a empolgação Death/Thrash Metal
de “Words of Mankind” (algumas
melodias muito boas surgem na canção, evidenciando que eles têm muito a
oferecer). Garantia de surdez absoluta e aporrinhação aos vizinhos
churrasqueiros de fim de semana!
O LETHAL STORM
chega bem com “Manipulated Mind”,
mostra que tem talento e potencial para ser um nome forte do cenário nacional.
Quem viver, verá.
Fazer Metal ou qualquer estilo de Rock no Brasil sem apoio
de público ou da grande mídia é um ato de coragem. Sim, de muita coragem, de
resistência e vontade de ferro, pois em um país de terceiro mundo, onde o aspecto
financeiro pouco ajuda (e até mesmo atrapalha), tudo é mais difícil, mesmo as
iniciativas seminais. Mas para os raçudos como o pessoal do UGANGA, isso parece ser algo motivador.
E “Manifesto Cerrado”, DVD que
celebra os 20 anos da banda, é uma mostra disso.
Óbvio que falar do Thrashcore/Crossover eclético do grupo é
desnecessário. É denso, sujo e com cheiro de becos, mas cheio de influências de
dos mais variados estilos de Metal, e mesmo algumas coisas de fora. Por isso
cai bem, pois pouco tem com bandas que rebuscam uma sonoridade mais anos 80, e
pouco com as bandas Hardcore mais jovens e melodiosas.
Antes de tudo, é preciso esclarecer que o DVD é composto de
duas partes:
1. Documentário: onde os 20 anos da banda são contatos;
2. Show ao vivo: uma apresentação especial do grupo em uma
antiga estação de trem, o espaço Stevenson, em Araguari (MG).
Primeiramente, falemos do documentário.
Em 20 anos de atividade, muita coisa acontece. E o
interessante é que existe documentação em vídeo, com takes de participação em
programas na MTV (um deles, com o vocalista Manu ainda na bateria), cenas de shows antigos (inclusive um onde
levaram um cover para “Tearing” do ROLLINGS BAND), filmagens da gravação
do primeiro disco, entre outras, inclusive gravações de quando a banda ainda se
chamava GANGA ZUMBA, entre outros.
Mas um dos momentos mais legais é mesmo quando a banda é
exibida durante as gravações de “Opressor”
(último disco de estúdio do grupo), onde o produtor Gustavo Vazquez fala de sua visão sobre o disco (inclusive a
pré-produção, pois temos takes de Gustavo
na troca da caixa de bateria, para ilustrar essa parte do processo de criação
do disco). Ainda encontramos Arthur
do VULCANO comentando o cover para “Who Are the True”, Murillo do GENOCÍDIO falando da participação de Manu em “I Deny” (do CD “In Love
With Hatred”) e de sua participação no solo de “Who Are the True”, Juarez
do SCOURGE aparece gravando sua
participação em “Opressor”, de Ralf Klein (do MACBETH)... É muita coisa, tanto que boa parte do documentário é
focado nas gravações e estresses ocorridos nesse período.
Nos takes da passagem do quinteto pela Europa, há momentos
hilários de pura descontração que contrastam com a energia crua do quinteto em
suas apresentações. Os comentários da galera do TERRORDOME ilustram bem isso. Há ainda depoimentos de Eliton Tomasi (manager e assessor de
imprensa da banda), falando de como estava sendo o contato da banda com o Velho
Continente.
Já na volta ao Brasil, temos um pedaço da entrevista de Manu no programa “Pegadas de Andreas Kisser”, cenas do casamento de Thiago (o pessoal mais true não vai
comprar esse DVD por isso). Mas há também os comentários sobre as contusões dos
integrantes na época (todo mundo teve uma), e outros problemas eternos que
realmente levaram os integrantes a outro nível de estresse que realmente quase
levou o grupo a seu fim.
Mas pelo visto, isso foi só para fortalecer o grupo. As
dúvidas que a banda tinha foram levadas diretamente do documentário para o
show.
Nisso, podemos falar sobre a apresentação ao vivo.
Na época, o processo de pré-produção desgastou a banda, e os
problemas de saúde, pessoais, familiares e outros que são narrados no documentário
realmente os colocaram em um momento de “ou dá ou desce”, ou seja, de
questionamento se valia a pena continuar a banda ou pararem por ali. A cereja
do bolo é o afastamento de um ano de Christian
por conta da saúde.
No depoimento escrito que antecede o show, se percebe a
intensidade do que eles passaram, tanto que apresentação é bem diferente, com a
banda tocando em círculo, ou seja, os integrantes olhavam apenas uns para os
outros. Além disso, a apresentação só teve familiares, amigos, parceiros,
equipe. Traduzindo: somente pessoas próximas estiveram presentes nessa
apresentação.
No repertório, pancadas retas e diretas que remetem a todos
os discos do grupo, em um setlist bem variado. Percebe-se que realmente há uma
energia densa, quase que palpável, cercando o quinteto. E essa energia se
distribuiu bastante por todas as canções, resultando em versões arrasadoras
para “Sua Lei, Minha Lei” (caos
total, energia positiva fluindo aos montes),
“Nas Entranhas do Sol” (uma canção mais densa, pesada e azeda, cm clara
influência do BLACKSABBATH em muitas partes), “Couro Cru” (uma versão mais atual
desse Hardcore bruto e direto, com a presença de “scratchs” de DJEremita),
a agressividade rasgada de “Moleque de
Pedra” (onde Juarez do SCOURGE faz uma participação, mesmo
acidentado, mostrando o que é a fraternidade de quem é da “Old School” aos mais
jovens), a mais cadenciada “Modus
Vivendi”, a insanidade caótica da versão para “Who Are the True” do VULCANO
(a participação de Maurício “Murcego”
Pergentino acrescentou ainda mais peso e um toque de Rock ‘n’ Roll às
guitarras), e “Aos Pés da Grande Árvore”
(outra pancada). Encerrando, com um toque tribal/mulato à apresentação, os
atabaques de Mestre Mustafá, Tatiane
Ribeiro e Lílian Salgado em “Noite” (um encerramento meramente
percussivo que serve para evocar o significado do nome UGANGA). E através dessa energia que fluiu da música durante todo
o show realizou um exorcismo e revitalizou o quinteto, que já está pronto para
novos desafios.
O trabalho da edição e captação de vídeo de Eric Shunway, mais a captação, mixagem
e masterização de Gustavo Vazquez
valorizaram muito “Manifesto Cerrado”,
pois tanto em termos de imagem quanto de som não há o que reclamar. Alías,
diga-se de passagem: pela que se vê e ouve no show, o som do UGANGA é bem orgânico, longe da busca
da perfeição em estúdio. O som é o que eles tocam ao vivo, pura e simplesmente.
O lado gráfico ficou ótimo, pois além da capa muito boa
criada por Marco Henriques (baterista
do grupo e irmão de Manu), mas o
encarte é muito legal, recheado daquelas colagens de fotos tão comuns dos anos
80, e que são bem pouco utilizadas nos dias de hoje.
Encerrando: “Manifesto
Cerrado” mostra que a família UGANGA
está mais unida que nunca, e que está afiada para novos compromissos sonoros. E em uma boa iniciativa do Poder Público, o DVD foi financiado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC) de Araguari (MG), sendo que o documentário foi exibido no Museu da Imagem e do Som (MIS) / Cine Santa Tereza, no mês de Junho de 2017 como parte da programação oficial do projeto “Mostra Minas no Metal”, evento que foi paralelo ao festival “Monster Of Metal”.
Ah, sim: tanto o documentário quanto o show foram disponibilizados pela banda no Youtube, visando democratizar ao máximo o acesso das pessoas ao lançamento. Mas merece muito a aquisição da versão física.
Ah, sim 2: este autor se permitiu abordar o documentário antes do show por mera conveniência.
Thiago Zig - Baixo, vocais adicionais em “Get What You Want”, “Let Me Be Me”, e “Ashes of My Fears”
Ficha Técnica:
Marcelo Oliveira - Gravação, produção, mixagem, masterização, arranjos das orquestrações e corais, guitarras adicionais em “Last Forever”, violão em “Run to You”, programação de bateria, orquestrações
Aline Happ - Design do encarte, fotografia (contracapa)
O Rio de Janeiro, embora cm um cenário distante do que já
foi um dia em termos de público, ainda é um celeiro relevante para o Metal
nacional, com ótimas bandas surgindo todos os dias, e com as antigas mostrando
evolução constante. E um nome que realmente evoluiu muito é o do LYRIA, grupo carioca de Symphonic
Metal. Se o primeiro disco, “Catharsis”,
dava sinais que um talento estava surgindo na terra do Sol escaldante e praias,
em “Immersion”, recém-lançado
segundo álbum deles, isso fica ainda mais nítido.
Basicamente, a palavra que se poder aferir ao grupo nesse
segundo trabalho é “profissionalismo”.
Em tudo, “Immersion”
transpira que cada aspecto do trabalho musical deles foi talhado tendo em mente
o profissionalismo de seus integrantes, sem que se perca a espontaneidade. E podemos
dizer que o grupo trouxe para suas linhas melódicas os timbres instrumentais
pesados e agressivos do Metal moderno, que não descaracterizaram sua canção,
mas lhe deu maturidade. Sem querer fazer comparações (o que não seria justo com
o grupo), este segundo disco vai nos trazer à mente a formulação que o NIGHTWISH usou em “Century Child” e “Once”,
ou seja, melodias sinfônicas pesadas com a agressividade moderna da época. E
isso dá à música deles uma energia imensa, sem que a elegância seja perdida, e
continua sendo algo extremamente sedutor aos ouvidos.
Direto e reto: “Immersion”
é um passo adiante na carreira do grupo.
A produção realmente caprichou em tudo. Tudo se ouve e se entende
em “Immersion” sem problemas ou
maiores esforços, sem falar que a escolha de timbres instrumentais ficou
excelente. É uma sonoridade pesada e densa, mas esteticamente clara, que
permite as melodias evoluírem e nos envolverem completamente. Além disso, a
capa do trabalho ficou caprichada, elegante e muito bem feita, dando a ideia ao
ouvinte do que o aguarda ao ouvir o disco.
O fato é que o LYRIA
se faz um grupo profissional, que faz um trabalho musical visando ser assim.
Não gastam o tempo deles reclamando das vicissitudes do circuito Metal
brasileiro, mas focam suas energias criativas na música em si. Por isso, tudo
que se ouve nesse álbum tem um toque extra de bom gosto. E sim, como eles
souberam arranjar seu trabalho de forma minimalista, mas sem que aquele jeito
espontâneo (que é imprescindível) seja obliterado. É Symphonic Metal com um “q”
de ecleticismo em termos de Metal, pois existem alguns vocais urrados e momentos
influenciados por estilos mais extremos.
O grupo desfila 11 composições muito bem feitas, que merecem
ser apreciadas em sua totalidade (o que demanda mais de uma simples audição,
embora a música deles não seja difícil de ser assimilada). Mas se destacam a
beleza encorpada e densa de “Follow the
Music” (belos arranjos de corais, sem mencionar que esses vocais macios e
bem postados nos embalam), a pegada mais agressiva e cheia de mudanças rítmicas
de “Get What You Want” (os
contrastes entre partes mais introspectivas e outras mais pesadas é ótimo,
ajudando a perceber que o baixo está muito bem, e se ouvem vocais mais
agressivos contrastando com os limpos), o groove intenso e moderno que permeia “Let Me Be Me” (percebam como o grupo
realmente investe pesado em termos de elegância, com teclados fazendo um fundo
melódico de primeira, sem falar nos solos de guitarra), as belas passagens de
teclados e melodias mais simples de “Best
of Me” (há certo feeling acessível na canção, e é justamente ele que faz
essas melodias agarrarem em nossos ouvidos e não saírem mais), as linhas melódicas
e estruturação musical de “Last Forever”,
o jeito mais pesado e direto de “Something
is Rotten”, e a beleza terna de “Run
to You”. Mas o disco inteiro é uma mostra de bom gosto e talento, logo,
podem ouvir de ponta a ponta sem medos.
“Immersion” abre
um novo caminho para o LYRIA, logo,
aproveitem e deixem emergir pela música deles.