sexta-feira, 17 de agosto de 2018

SLAYER - Reign in Blood


Ano: 1986
Tipo: Full Length
Selo: Geffern Records
Nacional


Tracklist:

1. Angel of Death
2. Piece by Piece
3. Necrophobic
4. Altar of Sacrifice
5. Jesus Saves
6. Criminally Insane
7. Reborn
8. Epidemic
9. Postmortem
10. Raining Blood
11. Aggressive Perfector
12. Criminally Insane (Remix)


Banda:


Tom Araya - Vocais, baixo
Kerry King - Guitarras
Jeff Hanneman - Guitarras
Dave Lombardo - Bateria


Ficha Técnica:

Rick Rubin - Produção
Howie Weinberg - Masterização
Andy Wallace - Engenharia de som
Larry Carroll - Arte da capa


Contatos:

Assessoria:
E-mail:

Texto: M. Garcia


1986.

Neste ano que começava a segunda metade dos anos 80, as bases e características do que chamamos de Thrash Metal foram finalmente assentadas com o lançamento de “Master of Puppets” do METALLICA. Mas já seguidos por uma imensa legião de fãs, o SLAYER era considerado o mais insano e brutal grupo daqueles anos. E parecia que eles não estavam dispostos a deixar que ninguém lhes tirasse isso, já que o mercado foi inundado por discos extremos na agressividade naqueles anos.

Mal sabiam, mas o quarteto de Huntington Park (California) estava preparando um disco definitivo, que iria fazer todos os grupos extremos virarem seus seguidores. E sinceramente, poucos discos podem ser tão marcantes e influentes como “Reign in Blood”.

A verdade é que “Hell Awaits” (de 1985) havia recebido uma resposta em termos de venda muito boa. Eles estavam prontos para o pulo do gato com seu próximo disco, logo, o batalhador Brian Slagel (dono da Metal Blade Records e produtor do grupo) correu atrás de uma gravadora grande. E de todos, foi a Def Jam Recordings (especializada em Hip Hop, que tinha Rick Rubin como Manda-Chuva) quem levou, pois Rick foi conversar em pessoa com o grupo, para convencê-los a dar este passo. E lembrando: a Def Jam era um selo que tinha distribuição da Columbia Records, logo, portas poderiam se abrir.

Mas os fãs da época suaram frio vendo o SLAYER assinando com um selo enorme, ainda mais um que trabalhava prioritariamente com Hip Hop. Para quem viveu aqueles tempos, é fácil lembrar-se de quantos grupos saíram de selos independentes como ótimos e viraram bandas de Glam Metal nas “majors”.

Mal sabiam o que “Reign in Blood” faria com a percepção de todos...

Antes de gravarem o disco, pela primeira vez, o grupo fez uma sessão de fotos profissionais, usada em um “tour book”, bem como uma das fotos é a clássica da contracapa da versão em vinil. Algumas mostravam a banda de bermudas coloridas, e que provocaram comoções nos radicais da época. Nunca esqueço que a revista Metal chegou a ser acusada de montagem.

Mas o que “Reign in Blood” tem de revolucionário?

A primeira coisa é que eles fugiram completamente do modelo!

Antes de tudo, as músicas ficaram bem mais curtas. Óbvio que era uma influência do Hardcore/Punk Rock, mas ao mesmo tempo, o grupo estava cansado de ouvir muitas repetições de riffs (o que eles tiveram ao ouvir os discos recentes do METALLICA e MEGADETH). Por isso, tudo mais curto, mais rápido, e uma ferocidade absurda. É o SLAYER mostrando que ninguém tinha condições de batê-los em termos de agressividade e brutalidade. Menos de 30 minutos de amassa-crânios, de um festival de ferocidade ímpar. Sinceramente, eis aqui o disco que veio para lançar as bases do que seria o Death Metal dos anos 90.

Traduzindo: o SLAYER foi além, criando músicas rápidas e muito brutais, abandonando das evidentes influências da NWOBHM que existiam em “Show No Mercy”, e deixando para trás as canções longas que são a característica de “Hell Awaits”. Aqui, nasceu o SLAYER que se popularizou, com seus riffs de guitarras marcantes, agressivos e de fácil assimilação (uma descrição interessante dos 80 era que a velocidade era tamanha que lembrava um ataque de vespas, devido ao zunido), solos doentios que duelam em questão de segundos, uma base rítmica sólida e veloz (sem deixa de ser técnica em termos de bateria), e vocais em tons agressivos próximos ao normal. Uma fórmula triunfal que ganhou o mundo e influenciou gerações.

Em “Reign in Blood”, pela primeira vez, o quarteto teve uma produção sonora de ponta. Rick Rubin chamou a responsabilidade de produzir, pela primeira vez, um disco de uma banda de Metal, tendo Howie Weinberg na masterização e Andy Wallace na engenharia de som. Ele ajudou a moldar o som do SLAYER por toda sua carreira, pois de lá para cá, esse “inprint” não mudou continua. No caso, Rock limpou o som deles de todos os efeitos que eram usados “no talo”, ficando algo mais orgânico, direto e seco, fazendo com que os timbres abrasivos ficassem mais audíveis. Sim, era uma qualidade de banda grande à disposição deles, que souberam usar disso muito bem.

Na arte, fugindo do primitivismo ingênuo dos discos anteriores, o artista Larry Carroll (especialista em ilustrações de cunho político, com trabalhos feitos para The Progressive, Village Voice, The New York Times e outras publicações) trouxe algo estilisticamente mais complexo e marcante, mas sombrio e completamente doentio. E capa mostra tudo o que o som do disco é sem tirar e nem pôr.

A verdade é que com “Reign in Blood”, o SLAYER estabelece um novo paradigma musical dentro do Thrash e do Death Metal: a velocidade insana, aliada à musicalidade impactante, dura e sem firulas da banda, mais os temas agora mais maduros de suas letras (o satanismo infantilóide deu lugar a algo mais violento, totalmente focado em mortes, medos humanos em uma abordagem subjetiva entre outras coisas mais agressivas).

Contracapa da versão em vinil.
Nesse disco curto e grosseiro, dez temas icônicos transformam a audição em algo traumático, já que um novo modelo foi estabelecido. É ame ou odeie, sem meios termos. E verdade seja dita: o impacto de “Angel of Death” com sua muralha de riffs insanos e duelos de solos ogrescos (haja alavancas!), a grosseria curta e grossa de “Necrophobic” (vai cantar rápido e firme assim no raio que o parta, vai!), as mudanças de ritmo grotescas da insana “Altar of Sacrifice” (baixo e bateria firmes, e as baquetas e bumbos guiam o assassinato musical), os contrastes dos andamentos em “Criminally Insane”, as melodias duras e opressivas de “Reborn” (riffs insanos herdados diretamente do Hardcore, e que refrão!), as guitarras marcantes de “Postmorten” (os vocais estão com uma dicção ótima, e se essa canção não te faz bater cabeça em sua metade lenta e na outra mais veloz, você não é do meio, simples assim), e a marcante introdução brutal de “Raining Blood” são clássicos absolutos, que o tempo estabeleceu. E na versão CD remasterizada ainda temos dois bônus: uma versão regravada de “Agressive Perfector” (mais curta e hardcorizada que a original) e a mixagem diferente para “Criminally Insane”. Mas mesmo assim, “Piece by Piece”, “Jesus Saves” e “Epidemic” são autênticos hinos à agressividade que o quarteto criou.

E sem tocar em rádios, sem vídeos na MTV, “Reign in Blood” vendeu mais de 500.000 cópias!

Tal como todos os discos clássicos, “Reign in Blood” tem suas muitas polêmicas:

1. O conteúdo lírico do disco e a capa fizeram com que a Columbia Records se negasse a distribuí-lo. Resultado: a Geffen Records se responsabilizou pela distribuição;

2. “Reign in Blood” não pode ser veiculado em rádios pelas letras;

3. No ano de 1988, em uma matéria da finada Metal, pouco depois do lançamento de “South of Heaven”, é mencionado que o SLAYER foi acusado de causar problemas idênticos aos que sabemos do JUDAS PRIEST e OZZY OSBOURNE por suas letras. Embora não se encontrem informações na internet sobre isso (eu procurei e não achei);

4. O único caso que vi de assassinatos relacionados à banda: os pais de Elyse Pahler (uma jovem de 15 anos que foi estuprada e morta por Jacob Delashmutt, Joseph Fiorella e Royce Casey) acusaram e processaram o quarteto em 1996 de “inspirarem os assassinos”. Óbvio que o caso foi encerrado em favor do quarteto;

5. A maior de todas: a letra de “Angel of Death” trata do médico nazista Joseph Mengele e seus experimentos com seres humanos no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Só que isso causou uma comoção enorme entre os sobreviventes do campo de concentração em questão, e que dura até os dias de hoje, sendo que vez por outra o grupo se vê obrigado a dar declarações negando qualquer tipo de simpatia pelo regime nazista.

Sim, apesar de ser estranho, já havia o pensamento do politicamente correto na época. A sorte é que na época, os fãs de Metal estavam mais preocupados com a música do que com vertentes políticas e orientações morais. Cada um com a sua, mas os amigos pessoais desse que vos escreve que são fãs incondicionais de “Reign in Blood” nunca fariam mal a uma mosca sequer. Hora de repensarem suas prioridades.

Este autor tem uma: ouvir “Reign in Blood”, esse clássico da música extrema mundial.

Ah, sim: Kerry King ainda tinha cabelos compridos na época.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

BULLET - Dust to Gold


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Nacional


Tracklist:

1. Speed and Attack
2. Ain’t Enough
3. Rouge Soldier
4. Fuel the Fire
5. One More Round
6. Highway Love
7. Wildfire
8. Screams in the Night
9. Forever Rise
10. The Prophecy
11. Hollow Grounds
12. Dust to Gold


Banda:


Hell Hofer - Vocais
Alexander Lyrbo - Guitarras
Hampus Klang - Guitarras
Gustav Hector - Baixo
Gustav Hjortsjö - Bateria


Ficha Técnica:

Magnus Sedenberg - Produção, mixagem


Contatos:

Assessoria:
E-mail:

Texto: M. Garcia


O Metal possui momentos em que um ou outro de seus subgêneros está na moda, ou seja, fica mais evidente que os outros. A atual é o resgate sonoro dos anos 80 por bandas mais jovens. Isso não é ruim, contanto que as bandas sejam adeptas de fazer as coisas ao jeito delas. Repetir o passado por repetir é perda de tempo. Muitos se perdem e fazem trabalhos aquém de suas possibilidades, enquanto outros, mesmo sem serem originais, nos brindam com discos excelentes. No último grupo, temos os suecos do BULLET, que chegam ao Brasil via Shinigami Records, que lançou “Dust to Gold”, mais recente disco deles, por aqui.

Podemos dizer que o trabalho deles é baseado na fusão de elementos melodiosos do Heavy Metal germânico (nomes como ACCEPT, GRAVE DIGGER, e RUNNING WILD vêm às nossas mentes) com alguma coisa do Hard ‘n’ Heavy da NWOBHM, melodias grudentas que eram comuns em bandas de Heavy Metal da Bélgica e a energia crua de um AC/DC. E tudo isso feito com uma pegada voltada ao Metal dos anos 80. Assim, temos uma música forte, cheia de vida e energia (pois eles preferem fazer as coisas ao jeito deles), refrães extremamente grudentos, e uma personalidade sólida.

Sim, “Dust to Gold” é um discão, e vai causar dores de pescoço em muitos!

As mãos de Magnus Sedenberg (que fez a produção e mixagem do disco) deram uma vida e brilho ao estilo à moda antiga do quinteto, trazendo para os dias de hoje o estilo da banda. Ou seja, é Metal Old School, mas com a força, intensidade e clareza da modernidade, ou seja, é como se a banda plugasse seus instrumentos e tocasse na forma mais orgânica possível, mas com captação digital, e dessa forma, a crueza vem dos timbres instrumentais, o que é um ponto muito positivo. A capa, por sua vez, é bem retrô, algo bem pensado.

Chega a ser uma covardia com o coração dos bangers mais velhos o que o BULLET faz em suas canções, e vai conquistar muitos fãs mais jovens também. “Dust to Gold” é o típico disco onde a energia e as melodias se mesclam de forma inspirada, e quem ganham no final de tudo é o ouvinte, pois esse disco é “bão pra mais de metro”, com uma forma bem espontânea de nos tomar de assalto!

Embora todas as músicas sejam excelentes, destacam-se a força e peso de “Speed and Attack” (um andamento sólido, sem ser veloz, e com um trabalho ótimo de baixo e bateria), o jeito envolvente e intenso de “Ain’t Enough” (as melodias Hard ‘n’ Roll no meio do peso que eles conjuram são ótimas, com excelentes guitarras tanto nos riffs como nos solos) e de “Rouge Soldier” (se você não gostar, é sinal que está morto, pois haja grude, e os vocais à lá Chris Boltendhal são excelentes), a energia abrasiva e empolgante de “Fuel the Fire”, a força opressiva das linhas harmônicas de “Highway Love” e do jeito setentista de “Wildfire” (puro AC/DC com ACCEPT, só que vibrante, atual e grudenta como ela só), o charme Old School de “Hollow Grounds”, e os tempos não tão velozes (mas pesados de doer os tímpanos) de “Dust to Gold”. Mas este é um play que vocês ouvirão do início ao fim sem reclamar.

É o sexto disco desses veteranos suecos, mas acreditamos que “Dust to Gold” será um pulo do gato para o BULLET, que os levará a um patamar mais alto, pois merecem. Eles têm música para tanto. E recomendo fortemente que todos ouçam!

Nota: 95%


MY REFLECTION - Homeland


Ano: 2018
Tipo: Websingle
Importado


Tracklist:

1. Homeland


Banda:


Jenni Räikkönen - Vocais
Petja Haapaniemi - Guitarras, vocais
Henri Vuorenmaa - Guitarras
Aki Tainio - Baixo
Petri Inkinen - Bateria


Contatos:

Site Oficial:
Assessoria:
E-mail:

Texto: M. Garcia


Para aqueles que acompanham a história do Metal e sua evolução, não é difícil perceber que o estilo, a cada época, parece ser estar mais evidente em um país ou região do mundo. Nos anos 70, a Inglaterra tinha a primazia; nos anos 80, EUA e Alemanha eram os centros; nos anos 90, maior foco na Noruega e Suécia. Mas desde a segunda metade dos anos 90, a potencialidade da Finlândia explodiu. Talvez seja hoje o país que mais exporta bandas de Metal do mundo, todas elas com muita qualidade. E é interessante perceber o amor de muitos finlandeses por sua terra natal. No caso do quinteto MY REFLECTION, eles levaram esse sentimento a extremos com seu novo Single, o recém-lançado “Homeland”.

O quinteto tem por estilo uma vertente do Symphonic Metal, que ora é melodioso e introspectivo e recheado de melodias ternas, e ora soa mais agressivo e preenchido por uma estética moderna. Óbvio que estes contrastes geram uma forma musical elegante e bastante dinâmica, cheia de peso e energia. Óbvio que esse jeito de se fazer Metal não chega a ser novo, e este tipo de ideia já anda em prática por aí, mas a forma com a qual o quinteto lida com sua música é bem pessoal, apaixonante e cheia de vida. Partes melódicas bem feitas, refrão muito bem cuidado, e tudo em seus devidos lugares.

Sim, o MY REFLECTION faz bonito, e muito, em “Homeland”.

A produção sonora realmente foi bem feita, buscando deixar a banda clara tanto nos momentos mais agressivos como nos mais melódicos, e consegue deixar a música em si soando grandiosa. Os timbres instrumentais foram muito bem escolhidos, bem como a impostação das vozes é muito boa. Tudo bem feito e na medida justa.

No caso da capa, ela nos mostra uma paisagem da Finlândia, buscando dar a ambientação correta para a canção. E verdade seja dita: como é bonita a foto.

Se por um lado o estilo do grupo não chega a ser inovador, por outro eles mostram valor ao reescreverem as regras à moda deles. Por isso, a sedução sonora de “Homeland” é irresistível, e em termos de arranjos musicais, o MY REFLECTION mostra muita personalidade, e sabem encaixá-los perfeitamente.

Em seus pouco mais de seis minutos, “Homeland” nos envolve com suas melodias bem feitas, orquestrações belíssimas e contrastes entre momentos brutos (onde os timbres modernos das guitarras e força da base rítmica se mesclam aos ótimos vocais rasgados) e mais suaves (onde as orquestrações e vozes femininas suaves comandam as linhas melódicas) transformam a audição desta canção em momentos de puro prazer. Mas não se enganem: “Homeland” é envolvente, de simples assimilação para nossos sentidos.

“Homeland” é um tributo do MY REFLECTION à Finlândia, uma exposição das belezas do país e sua história (e justamente quando a nação completa 100 de sua independência), bem como das características do Metal finlandês.

E digamos de passagem: tudo isso nos leva a querer conhecer mais e mais do trabalho do grupo.

Ah, sim: “Homeland” pode ser ouvido nas plataformas digitais abaixo.


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

MAESTRICK - Espresso Della Vita: Solare


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Nacional


Tracklist:

1. Origami
2. I a.m. Living
3. Rooster Race
4. Daily View
5. Water Birds
6. Keep Trying
7. The Seed
8. Far West
9. Across the River
10. Penitência
11. Hijos de la Tierra
12. Trainsition


Banda:


Fábio Caldeira - Vocals, piano
Renato Somera - Baixo, backing vocals
Heitor Matos - Bateria, percussão
Neemias Teixeira - Teclados


Ficha Técnica:

Adair Daufembach - Guitarras, produção
Fernando Freitas - Percussão
Juh Leidl - Artwork


Contatos:

Site Oficial:
E-mail:

Texto: M. Garcia


Existem grupos que levam logos intervalos de tempo entre seus lançamentos. Nos dias de hoje, onde as apresentações ao vivo se transformaram na opção de sobrevivência de grupos profissionais (pois são nos shows em que eles conseguem vender algum merchandising), o hiato que antes durava, no máximo, dois anos, se expandiu. Algumas bandas perdem algo nesses períodos, enquanto outros justificam a nossa longa espera. O MAESTRICK, grupo de Prog Metal/Rock de São José do Rio Preto (SP) levou cinco longos anos entre “Unpuzzle!” (de 2011, seu primeiro álbum) e o EP “The Trick Side of Some Songs” (feito de covers e lançado em 2016), e agora, chega com seu segundo “full length”, que se chama “Espresso Della Vita: Solare”.

Mas o que podemos esperar do disco?

Para início de conversa, o estilo do grupo foi ficando mais lapidado e conciso, mas a personalidade eclética de antes continua presente. E dois aspectos os diferem de tantos grupos do gênero: eles têm uma inclinação um pouco maior para o lado Prog (e que é mais influenciado por JETHRO TULL, YES e GENESIS que por PINK FLOYD, o caso da maioria quase esmagadora), o que nos trás algo mais diversificado musicalmente; e eles são bem mais ecléticos que a maioria que foca-se apenas na mistura de Metal com Rock Progressivo (ou seja, o modelo europeu do estilo), com “inserts” de influências regionais (como se percebem no uso de viola caipira e berrante no início de “Rooster Race”), Pop e Classic Rock (reparem nos arranjos à lá BEATLES de “Daily View”), mantendo a elegância e o bom gosto musical como constantes em seu trabalho. Mas mesmo com canções grandes e trabalhadas, o que se ouve nesse álbum é extremamente envolvente, gruda nos ouvidos e na mente, e não sai mais. Ou seja, se gostaram de “Unpuzzle!”, é mais que certo que irão adoram  “Espresso dela Vita: Solare”.

A sonoridade do disco foi construída com calma, para conseguir associar tantos elementos musicais diferentes em uma forma única e coerente. Mas Adair Daufembach (que produziu o disco, além de tocar as guitarras) fez um trabalho de primeira, pois o grupo soa pesado, mas mantendo aquela clareza vital para o trabalho do grupo, sem contar que nas partes mais trabalhadas, há uma estética sonora que nos remete ao Progressive Rock dos anos 70 (mas nada de datado). Além disso, a escolha dos timbres para os instrumentos musicais ajudou bastante. E, além disso, a arte da capa é convidativa, revela o conceito por trás do álbum: a vida é como um trem em seus trilhos, onde cada um testemunha os eventos como um passageiro.

E conduzindo este expresso, o MAESTRICK mostra como se evolui sem perder a essência. E o trabalho deles ficou de primeira, com arranjos muito bem pensados em canções inspiradas, com detalhes minimalistas, mas sem que sua música perca a energia e pegada espontâneas. Ou seja, eles conseguem juntar o melhor do Metal e do Rock Progressivo de uma vez só, usando influências diferenciadas (mencionadas acima) como alinhavo para tudo. Rodrigo Pimentel e Leonardo Almeida são convidados, que deram um toque diferenciado ao trabalho pelo uso de banjo, ukulelê e sobro, fazendo com que “Espresso Della Vitta: Solace” tenha uma sonoridade não convencional ao estilo.

E ficou de primeira o trabalho!

Destaques: o jeito Prog Metal pesado e melodioso de “I a.m. Living” (ótimo nível técnico, refrão de primeira, além de excelente técnica de baixo e bateria), os toques regionais e a energia envolvente de “Rooster Race” (um pouco mais direta e compacta, mas novamente com um refrão excelente), o jeito Pop/Heavissívo de “Daily View” (vocais de primeira, melodias de fácil assimilação), o jeito técnico envolvente das cordas de “Keep Trying”, as belas partes de teclados e violão que permeiam o início da multivariada “The Seed” (em seus mais de 15 minutos, eles conseguem fazer uma viagem musical de ótimo gosto, cheia de mudanças de ritmos e partes grandiosas, ou seja, é uma música que mostra a totalidade do trabalho musical deles), a introspectiva “Across the River”, a pegada mais agressiva e com Groove brasileiro à lá Samba Rock de “Penitência” (que foge um pouco ao estilo, mas que também mostra a versatilidade musical da banda), o jeito mais etéreo e “noir” de “Hijos de la Tierra”, e o final apoteótico na também à técnica e multifacetada “Trainsition” (sim, a grafia está correta, e fortemente correlacionada ao conceito do disco, e a canção varia do suave ao elétrico sem pudores).

Todos a bordo, pois o “Espresso Dela Vita: Solace” vai partir, e o MAESTRICK nos convida a ocupar lugares especiais.

Ah, sim, o disco pode ser ouvido nas plataformas digitais.

Deezer: https://bit.ly/2lV1v3R
Google Play: http://bit.ly/2tTCyub

Um dos melhores grupos do estilo no Brasil, sem sombra de dúvidas!

Nota: 100%


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

KATAKLYSM - Meditations


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Nacional


Tracklist:

CD:

1. Guillotine
2. Outsider
3. The Last Breath I’ll Take Is Yours
4. Narcissist
5. Born to Kill and Destined to Die
6. In Limbic Resonance
7. …And Then I Saw Blood
8. What Doesn’t Break Doesn’t Heal
9. Bend the Arc, Cut the Cord
10. Achilles Heel


DVD (Faixas marcadas com * são partes de um documentário):

1. Intro
2. In Shadows & Dust
3. Beyond Salvation
4. Why these 2 albums?*
5. Illuminati
6. Chronicles of the Damned
7. Bound in Chains
8. Rediscovering These Albums*
9. Where the Enemy Sleeps...         
10. Centuries (Beneath the Dark Waters)
11. *We Have a Different Drummer Now*
12. Face the Face of War
13. Years of Enlightment/Decades in Darkness
14. Intermission*
15. The Ambassador of Pain
16. The Resurrected
17. The Fans*
18. As I Slither
19. For All Our Sins
20. Generations*
21. The Night They Returned
22. Serenity in Fire
23. Drumming on the Different Albums*
24. Blood on the Swans
25. 10 Seconds from the End
26. The Tragedy I Preach
27. Meditations*
28. Under the Bleeding Sun
29. Credits


Banda:


Maurizio Iacono - Vocais
J.F. Dagenais - Guitarras
Stephane Barbe - Baixo
Oli Beaudoin - Bateria


Ficha Técnica:

Paul Logus - Masterização
Jay Ruston - Mixagem
Ocvlta Designs by Surtsey - Capa, Layout
Francis Bouillon - Samples


Contatos:

Assessoria:
E-mail:

Texto: M. Garcia


Há muito, já sabemos que é comum a banda transitar de um trabalho inicial mais bruto para algo diferente. E quanto mais longa a carreira, maior podem ser as diferenças. Isso nem sempre é bem vindo pelos fãs das fases mais cruas, mas abre a possibilidade dos grupos alcançarem novos fãs (e manter uma boa base dos antigos). Mas evoluir (e abraçar este processo) é algo para os fortes e corajosos, e nisso, o KATAKLYSM nunca se deixou ser manipulado. “Meditations”, seu mais recente trabalho (que nos chega via Shinigami Records/Nuclear Blast Brasil), prova isso para quem quiser ouvir.

O fato é que mesmo sendo rotulado como um grupo de Death Metal, esses canadenses nunca deram muita bola para isso. Apenas seguem seus instintos, vão e fazem. E no caso de “Meditations”, eles mantêm o pé firme no seu estilo, mas abrindo para alguns elementos mais modernos, ao mesmo tempo em que as melodias que permeiam sua música de uns anos para cá estão se tornando mais e mais evidentes, e nem tudo é tão extremo em termos de velocidade. Ou seja, esse disco dá continuidade à evolução musical encontrada em “Of Ghosts and Gods” de 2015, mas mantendo a autenticidade e essência brutal e furiosa de sempre.

A gravação teve uma mudança sensível: JF Dagenais dividiu a responsabilidade de fazer a parte de engenharia de som o baterista Oli Beaudoin. Na mixagem, o grupo trouxe Jay Ruston (conhecido por seus trabalhos com ANTHRAX, STONE SOUR, ARMORED SAINT, ADRENALINE MOB e outros), além de Paul Logus (que também já trampou com o ANTHRAX, além de CRADLE OF FILTH e SONS OF APOLO). Tudo converge em termos de sonoridade para ser o disco mais profissional possível do quarteto, além de permitirem que ele soe moderno e vigoroso. Nisso, a engenharia fez uma parte ótima, com timbres agressivos, mas secos e que dão uma ótima noção do que eles estão tocando. Além disso, a arte da capa é de Suzy Iacono, e transpira (de forma subjetiva) o título do disco, mas reparem bem que o escudo do quarteto se encontra ali, criando o “link” entre as novas ideias com a identidade amorfa do grupo.

Podemos dizer que “Meditations” é, de longe, o disco mais variado do KATAKLYSM. Óbvio que eles não negam seu passado, os fãs mais antigos perceberão isso, mas se recusam a ficarem regravando o mesmo disco, usando arte e nomes diferentes, e jogam na cabeça dos fãs. De forma algum, se percebe que as composições do disco são todas muito bem feitas, com arranjos que se encaixam uns nos outros perfeitamente, além de mostrarem a velha agressividade de sempre.

Em dez temas arrasadores, eles mostram que também apuraram sua técnica, o que lhes garante maior diversidade musical. “Guillotine” é veloz, apesar de curta, já mostra aos fãs a que eles vieram (que melodias bem sacadas). Em “Outsider”, um pouco mais arrastada, temos uma faixa com elementos musicais mais modernos e ótimo trabalho dos vocais (até a dicção melhorou). Transitando entre a aura opressiva com tempos mais lentos e o impacto melódico das guitarras, “The Last Breath I’ll Take is Yours” é maravilhosa, e que nos seduz facilmente, assim como o azedume de “Narcissist” (belo trabalho de baixo e bateria, e a canção nos lembra de um pouco os elementos que ouvimos em “Blood in Heaven”). Em “Born to Kill and Destined to Die”, uma composição mais simples em termos de arranjos e com ritmo oscilando entre partes mais cadenciadas e outras em tempo mediano, percebem-se a presença de excelentes solos de guitarra. Já explorando um pouco mais partes com os famosos “blast beats”, temos “In Limbic Resonance”, outra que explora bem as melodias das guitarras sem deixar de ser brutal. A cadência do ritmo é um dos elementos de “...And Then I Saw Blood”, uma canção instigante, que empolga o ouvinte e que tem melodias decorativas maravilhosas. O clima fica ainda mais bruto e opressivo em “What Doesn’t Break Doesn’t Heal”, pois o andamento mais cadenciado privilegia essa ambientação carregada, mesmos elementos de “Bend the Arc, Cut the Cord”. E fechando, “Achilles Heel”, que tem uma pegada mais moderna, que remete a “Of Ghosts and Gods”, apenas com melodias mais soltas e evidentes. Até se percebe bem subjetivamente alguma influência do EX-DEO em certas passagens, mas o pesso opressivo do quarteto não permite que esta fique tão óbvia.

O KATAKLYSM veio para quebrar barreiras, e tenham certeza: “Meditations” veio pavimentar o caminho do quarteto para um público maior.

Ah, sim: como se já não fosse muito, a versão nacional de “Meditations” ainda tem um DVD bônus, cheio de músicas ao vivo, um documentário e muito mais. E assim, este lançamento vira um item obrigatório para todos!

Nota: 92%



IMMORTAL - Northern Chaos Gods


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Nacional


Tracklist:

1. Northern Chaos Gods
2. Into Battle Ride
3. Gates to Blashyrkh
4. Grim and Dark
5. Called to Ice
6. Where Mountains Rise
7. Blacker of Worlds
8. Mighty Ravendark


Banda:


Demonaz - Vocais, guitarras
Horgh - Bateria


Ficha Técnica:

Peter Tägtgren - Produtor, mixagem, baixo
Jonas Kjellgren- Masterização
Jannicke Wiese-Hansen - Arte da capa

  
Contatos:

Assessoria:
E-mail:

Texto: M. Garcia


Para quem ainda não sabe, bandas possuem as mesmas vicissitudes de matrimônios, ou seja, apesar do glamour que circunda o mundo show business, existem as crises e, muitas vezes, a separação. No caso de grupos musicais, quando um membro importante sai, fica sempre a curiosidade: será que a banda irá adiante ou vai parar? E como ela ficará sem aquele integrante que carregava parte da personalidade da mesma?

Um bom caso para esta analogia é o IMMORTAL, trio de Bergen (Noruega), e um dos nomes mais populares do Black Metal mundial, sem sombra de dúvidas. Com a saída do guitarrista/vocalista Abbath em 2015 (que deu início a uma banda que leva o próprio nome), muito se questionou sobre o que resultaria dessa separação. E finalmente, todos os questionamentos são respondidos na forma de “Northern Chaos Gods”, mais recente trabalho deles. E que tem versão nacional pela parceria da Shinigami Records com a Nuclear Blast Brasil. Ainda bem!

E nas versões Digipack ou Jewelcase (a escolha do cliente)!

Na realidade, o grupo está reduzido a um dueto, com Horgh na bateria e Demonaz mais uma vez as guitarras e assumindo os vocais. O baixo foi tocado pelo produtor e velho conhecido Peter Tägtgren (do HYPOCRISY e do PAIN). Em termos musicais, é preciso dizer que a saída de Abbath não causou avarias significativas à personalidade musical deles, pois o que se ouve em “Northern Chaos Gods” é o estilo clássico do IMMORTAL, remetendo bastante ao que aos clássicos “Blizzard Beasts” e “At the Heart of the Winter”, ou seja, aquela velocidade exorbitante aliada à boa técnica instrumental, além de peso e criatividade (pois não temos um disco de um fôlego só). E os vocais estão muito bem, embora diferentes (óbvio, com timbres rasgados mais agudos).

Em termos de produção, não há o que reclamar: as mãos de Peter para vertentes extremas de Metal não eram, associando à agressividade brutal do grupo uma estética limpa, com boa definição nos instrumentos. Os timbres instrumentais estão muito bons, beirando os que se ouve em “All Shall Fall”, ou seja, a estética mais crua está associada às canções, não a algo mal feito. Em termos gráficos, a simplicidade remete às raízes do Black Metal, e é quase uma declaração de que eles estão vivos, e dispostos a voltarem ao seu lugar de direito.

Para os que não sabem, Demonaz teve problemas severos de tendinite nas mãos, mas se submeteu a uma cirurgia, e pôde retomar as guitarras uma vez mais. O que é bom, pois o IMMORTAL pode nos brindar com mais uma pérola musical Sim, “Northern Chaos Gods” tem todos os elementos que os fãs da banda gostam, além de manter a identidade que o grupo delineou para si. E em termos de arranjos, continuam em alto nível, mesmo na simplicidade técnica a que os fãs já se acostumaram (prova que se pode fazer algo excelente sem ter que exagerar na execução das canções).

O disco já abre com uma paulada feroz e rápida, “Northern Chaos Gods” (que mantém a tradição de riffs velozes e simples, mas apresentando mudanças de ritmo muito interessantes), que é seguida de uma canção com os mesmos elementos, apenas mais técnica, que é “Into Battle Ride”. Em “Gates to Blashyrkh”, temos algo mais climático e soturno bem tradicional do trabalho deles, com alguns dedilhados ótimos nas guitarras, e a base mostrando um trabalho sólido de primeira (a bateria está ótima). A tempestade musical gélida continua intensa na rapidez explicita de “Grim and Dark”, onde algumas passagens mais lentas e envolventes nos agarram pelos ouvidos. Não tão veloz é “Called to Ice”, que mostra uma pegada esmagadora e ganchuda (haja pescoços). Se acham que o disco não poderia manter o nível ou melhorar, uma ouvida na forte “Where Mountains Rise” vai mudar suas concepções, pois que riffs e vocais (as linhas melódicas são perfeitas). Veloz, mas com arranjos lentos pontuais bem explorados, temos “Blacker of Worlds”, com alguns riffs impressionantes de tão grudentos. E fechando, a longa “Mighty Ravendark”, que é outra canção não tão rápida, mas que nos embala perfeitamente por sua base rítmica sólida, seus riffs grudentos e vocais insanos.

“Northern Chaos Gods” é o típico disco que cala a boca dos detratores, que leva os fãs a suspirarem. E verdade seja dita: agora temos duas bandas excelentes. E que o IMMORTAL continue sua saga de gélida por muitos anos!

Nota: 100+%