Tocar e criar canções em estilos mais tradicionais do Metal
não é tarefa simples, pois se esbarra sempre no “eu já ouvi isso antes”. Óbvio que
não se pode exigir que todas as bandas criem um novo estilo de Metal, um novo
gênero. Mas nem por isso as bandas podem desistir de terem sua própria forma de
fazer sua música, e é isso que o HEAVY
SMASHER (do Ceará) faz em seu EP “Smashed
and Loud”.
A banda não cria um estilo novo, mas soube fazer de sua
abordagem do Heavy Metal tradicional com aspectos modernos algo pessoal. Óbvio
que não se pode deixar de perceber influências de JUDAS PRIEST, BLACK SABBATH e mesmo ICED EARTH em seu trabalho, mas isso não os desabona. Desta forma a
música da banda é pesada e melodiosa, com cuidado na questão de arranjos (em
especial os refrães, o que evidencia alguns toques de Hard Rock aqui e ali),
mas mantendo uma ótima e salutar dose de agressividade.
Sim, o EP é muito bom, logo, hora de algum esmagamento de
ouvidos e pescoços!
A sonoridade do EP ficou de bom nível, com tudo pesado e
compreensível aos ouvidos, mostrando que existiu uma preocupação em se fazerem
entender. Mas tudo de forma que não se perde o clima despojado e “plug ‘n’ play”
que a banda carrega. A timbragem buscou ser a mais simples possível, evitando
algo excessivamente carregado e distante dos timbres mais modernos dos nossos
dias. Está bom, mas ainda um pouco longe do que a música do quinteto merece.
É perceptível que o HEAVY
SMASHER ainda tem um longo caminho a sua frente, pois ainda há certa
ingenuidade da banda em termos de composição, mas nada que o tempo e ensaios
não resolvam. Mas é impossível não ficar impressionado com sua capacidade de
lapidar suas melodias, de criar partes que nos empolgam sem fazer esforços, com
refrães marcantes (como o de “Heavy
Smasher Sound”) e um bom trabalho técnico. É uma boa promessa, e que
amadurecendo, vai dar trabalho aos grupos do time principal do Metal
tradicional brasileiro.
Por hora, as melodias empolgantes de “Heavy Smasher Sound” (refrão de primeira, além de ótimas guitarras,
e com um toque de Hard Rock dos anos 80), a energia crua e irresistível de “Clash of the Gods” (os riffs são ótimos,
sem falar que as partes dos vocais são muito, muito boas) e de “Sunrise Rebel” (um jeitão à lá JUDAS PRIEST da era de “Screaming for Vengeance” fica
evidente, e que peso de baixo e bateria), e “Screaming All” mais uma vez mostra a influência do Hard Rock em
sua música, mas sem negar seu alinhavo moderno (reparem bem como baixo e
bateria criam um trabalho pesado, permitindo que as guitarras mostrem riffs
diretos e ganchudos). Ainda temos a versão Demo para “Heavy Smasher Sound”, que nos permite observar como a banda evoluiu
entre as gravações duas versões.
Finalizando: o HEAVY
SMASHER é um nome promissor do cenário, que tende a crescer e ficar ainda
melhor. Mas “Smashed and Loud”
merece aplausos e ser ouvido no último volume!
Ah, sim: o EP pode ser ouvido nas plataformas digitais
abaixo.
Existem tradições no Metal que são difíceis de precisar
quando as mesmas surgiram. Uma delas é a mística que envolve o terceiro disco
do uma banda qualquer: ele tem que ser o divisor de águas na carreira do grupo,
e se ele não for um algo de alto nível e que chegue ao sucesso, a banda ficará
eternamente nos níveis inferiores, nunca será do “time principal”. O terceiro
disco é considerado “a nega”, ou seja, não há como escapar. Talvez o pai dessa
mística seja “The Number of the Beast”,
terceiro disco do IRON MAIDEN, a
banda de maior sucesso comercial do Metal em todos os tempos. É o disco
legendário deles, aquele cujo nome vem à mente de qualquer fã quando a banda é
citada.
Mas o que há por trás dele, afinal de contas?
Antes de tudo, voltemos no tempo: ainda em 1981, devido ao
abuso no consumo de drogas, o vocalista Paul
Di’Anno havia deixado a banda. Em setembro do mesmo ano, o ex-vocalista do SAMSON, Bruce Dickinson (na época, chamado Bruce Bruce) faz sua audição e entra para o quinteto, mas
obrigações legais com seu ex-grupo não o permitiram participar do processo de
composição (onde Adrian Smith e Clive Burr aparecem). Além do mais, o
estilo de compor de Steve Harris evolui
e começa a transitar para o que seria conhecido nos discos posteriores,
ganhando maior ênfase técnica, se afastando da energia crua do Punk Rock que a
NWOBHM carregava, mas mantendo a energia e peso de antes. Ao mesmo tempo, o
quinteto não tinha muito material antigo de sobra a ser aproveitado, logo, o
disco é todo fresco, novo.
O que há nele de diferente?
Ao mesmo tempo em que a voz de Bruce trouxe maior diversificação ao trabalho da banda, o
entrosamento dos outros membros (vindo de shows e turnês incessantes) também
fazia diferença. Mas algo em “The Number
of the Beast” é diferente, tanto em relação aos discos anteriores como aos
posteriores, algo que poderíamos dizer que seria um marco. Talvez a causa dessa
característica seja justamente por ele ser um disco de transição: a banda está
indo do passado com o toque de crueza (embora já houvessem dado sinais que
fariam algo mais elaborado a partir de “Killers”)
para um futuro mais trabalhado e dinâmico (o que se concretizará em “Piece of Mind” e “Powerslave”), ou seja, é um disco em que a banda está entre seu
passado e seu futuro, pegando o melhor de ambos.
Gravado entre janeiro e fevereiro de 1982 no Battery Studios, em Londres, a
produção, como ocorreu com “Killers”,
é assinada pelo veterano Martin Birch,
conhecido por conta de seus trabalhos com FLEETWOOD
MAC,DEEP PURPLE, RAINBOW, BLACK
SABBATH, WHITESNAKE, BLUE ÖYSTER CULT, WISHBONE ASH, entre outros. Basicamente,
a sonoridade é a mesma de “Killers”,
tendo a crueza dos sistemas analógicos, instrumentos musicais e efeitos mais antigos
(gravar uma bateria microfonada não é uma tarefa das mais simples), mas
mantendo a limpeza e bom gosto de sempre. Óbvio que para os padrões modernos
pode soar abafado e cru, mas era algo “top” para aqueles tempos.
Na arte, o trabalho de Derek
Riggs é belo e chamativo (embora a montagem com a banda na contracapa seja algo tosco). Óbvio que o choque causado pelo desenho causou polêmicas
em excesso, já que o grupo foi perseguido por grupos de fanáticos, sob a acusação
de satanismo. Uma pena que poucos viram as entrevistas, por anos a fio,
explicando que a letra da faixa-título vem de um pesadelo que Steve Harris (compositor
da canção) teve depois de ver “Damien:
Omen II” (conhecido por aqui como “A
Profecia II”), embora ela também sofra a influência do poema “Tam o’ Shanter”, de Robert Burns.
Musicalmente falando, “The
Number of the Beast” é um disco que pertence a dois mundos ao mesmo tempo:
o passado do IRON MAIDEN e o futuro
que estava à mão. A energia e frescor dele não se dissiparam em nada em 32 anos
desde seu lançamento. Óbvio, pois as melodias bem compostas, refrães marcantes,
a sabedoria de como conduzir os ritmos, tudo nesse disco tem um brilho enorme. Além
disso, a banda estava com sangue nos olhos: Bruce em uma forma esplendorosa, Dave e Adrian entrosados
e fazendo riffs e solos memoráveis, o baixo de Steve mais parecendo um tanque de guerra com peso e brilho (e não é
à toa um dos 5 melhores baixista do Metal de todos os tempos), além do já
finado Clive dar um show de peso e “groove”
na bateria. Não tinha como dar errado.
E não deu!
“The Number of the
Beast” é um dos grandes clássicos do Metal de todos os tempos, e o disco
definitivo do IRON MAIDEN. E as
canções mostram o porquê desta afirmação tão categórica.
O lado A abre com a torrente de energia de “Invaders”, uma faixa que tem clara
influência do Hard ‘n’ Heavy da NWOBHM, que se encaixaria perfeitamente em “Iron Maiden” em termos de
consensualidade (e que trabalho das guitarras e baixo). Em seguida, um dos
grandes clássicos do grupo, “Children of
the Damned”, que é tocada regularmente nos shows até hoje, uma semi-balada
pesada climática onde os vocais já mostram sua potencialidade, e faz uma ligação
interessante entre “Remember Tomorrow”
e “Revelations”. Já com algo que
apontava para o futuro vem “The
Prisioner”, cuja letra é baseada em um seriado inglês de mesmo nome, e que
tem um refrão grudento e as guitarras dão uma aula em termos de riffs e solos. Se
querem entender como o quinteto é uma influência seminal do Metal
norte-americano, basta uma ouvida em “22
Acacia Avenue” (que faz parte da estória contada em “Charlotte the Harlot”, e cuja música pertencia a finada banda
anterior de Adrian, URCHIN). O lado
A, mesmo com seus méritos e pessoalidades, ainda é consensual com “Iron Maiden” e “Killers” em termos estilísticos.
No lado B, o caldo engrossa!
A narrativa do ator inglês Barry Clayton para as citações 12, 12 e 13, 18 do Livro do
Apocalipse (que para quem não sabe, o termo vem do grego “apokalypsis” e significa
“revelação”) introduzem a clássica “The
Number of the Beast”, que começa sinistra e logo surge um grito agudo e a
canção explode em peso, mostrando um trabalho ótimo de baixo e bateria; ela foi
o segundo Single do álbum (lançado em 26 de Abril 1982) e quem nunca gritou “six,
six, six, the Number of the Beast” na vida não sabe o que é Heavy Metal. Em seguida,
talvez a mais icônica canção do álbum, e justamente o primeiro Single (lançado
em 12 de Fevereiro 1982, apenas 10 dias antes do disco): “Run to the Hills”, com guitarras em tom quase zombeteiro no
início, antes de virar uma avalanche de energia intensa, outro refrão que não
se esquece nunca, e o baixo trovejando (e cuja letra trata dos conflitos entre
os povos indígenas da América e dos colonizadores europeus sob a perspectiva de
cada um dos lados), e também concede pistas do que a banda seria nos anos
vindouros. Óbvio que uma enorme parte dos fãs concorda (inclusive o próprio Steve Harris assume isso) que a boa “Gangland” é uma canção que não é tão
boa como as anteriores, logo, puxou o nível do disco para baixo (é uma boa
canção, mas só isso, embora a bateria esteja bem nela). Fechando o disco, a
clássica “Hallowed Be Thy Name”, que
começa lentinha e climática, para depois ganhar mais energia e peso, uma faixa
épica e que terá “crias” no futuro, uma aula de interpretação dos vocais e um
ritmo empolgante, encerrando este clássico com chave de ouro.
Ah, sim: é preciso lembrar que “Total Eclipse” é uma sobra de estúdio que foi um “lado B” da
banda, justamente para o Single de “Run
to the Hills”. E é justamente sobre ele que Steve
manifestou o descontentamento com a escolha da banda de “Gangland” estar no álbum, já que ela talvez se encaixasse melhor no contexto
musical do álbum, conforme consta na biografia “Iron Maiden: Run to the Hills”, de 2004 (escrita por Mick Wall). Uma sorte que ela é
incluída nas edições em CD de “The Number
of the Beast” desde a série remasterizada de 1998.
Algumas curiosidades:
1. Bruce alegaque a banda pediu ao ator Vincent Price para fazer introdução de “The Number of the Beast”, mas deixaram
para lá por não poderem na época arcar com valor pedido £25.000.
2. Quando estavam em turnê pela Alemanha em 1982, congelando
em uma van, eles receberam uma ligação de Rod
Smallwood lhes dizendo para continuar, pois o disco estava vendendo bem.
3. Os protestos de fanáticos religiosos contra a banda por
causa da letra de “The Number of the
Beast” é uma mostra do chamado efeito Streisand, ou seja, quanto mais se
tenta abafar, calar, censurar ou outro ato similar, mais divulga aquilo.
4. Curiosamente, ele parece ser o disco que mais “desencaminhou”
filhos de boas famílias, já que o número de versões para as músicas desse disco
é algo absurdo. Não dá para contabilizar.
5. Assim como seus antecessores, “The Number of the Beast” mostra mudanças de formação: Bruce no lugar de Paul nos vocais. E ele seria o último disco de Clive na banda, que seria substituído pelo ex-baterista do grupo francês TRUST (aquele mesmo, que compôs a música “Antisocial”, popularizada pelo ANTHRAX), Nicko McBrain. Interessante saber que o posto de Nicko seria preenchido por ninguém menos que Clive! E sabe-se que o IRON MAIDEN havia tido o TRUST como “opening act” da parte francesa da “Beast on the Road Tour”.
No mais, “The Number
of the Beast” justifica a tradição de “o terceiro é à vera”, ou seja, ou
vira celebridade ou vira “Cult”. E ele é um disco tão importante para a história do Metal que não só ajudou a promover o gênero, mas abriu as portas de muitos países para a banda, inclusive o Brasil
Há 30 e poucos anos atrás, o mundo fora conquistado
pelo Rock. Era o estilo mais popular e mais ouvido pelos quatro cantos da Terra,
mas poucos têm a percepção de que este sucesso comercial se dava graças ao AOR,
um estilo caracterizado pelas melodias de fácil assimilação, refrães
estrategicamente simples de se gravar (e cantar), e onde a força principal não
residia apenas nas guitarras, mas no fato de que estas dividiam as atenções nos arranjos com os teclados. Era algo
tão simples de se fazer e com resultados rápidos que muitas bandas de Hard/Glam
Metal usaram de elementos de AOR para construir seus discos. Hoje, o estilo tem
sua popularidade diminuída por estar ausente do mercado norte-americano, mas
para uma sorte de todos nós, a Suécia virou o porto seguro do gênero e nos
revela bandas de excelente qualidade, como o CREYE, sexteto da cidade de Malmö, que chega com seu primeiro
álbum, “Creye”, lançado pela Frontiers Music SRL.
Pode-se dizer que o grupo foca seus esforços em criar um
trabalho que transita entre o AOR e o Pop Rock dos anos 80, ou seja, existe um
feeling saudosista evidente. Mas não soa datado, muito pelo contrário: o
sexteto soube dar uma roupagem atual ao estilo que é envolvente. Fora isso, se
preparem, pois não há um simples momentos nesse disco inteiro que não seja
ganchudo, que não fique em nossas mentes por semanas a fio. Além disso, é
preciso deixar claro que o grupo apresenta um bom nível técnico em suas
canções, mas o foco é mesmo em criar excelentes melodias fáceis de assimilar,
refrães grandiosos e desencadeiam uma energia abusivamente grudenta!
Sim, o CREYE
mostra que veio para ficar!
Erik Wiss trabalhou na
produção de “Creye”, e ele soube como trazer o trabalho musical do
sexteto para a atualidade, sem descaracterizar o feeling “retro” que eles
carregam. Além disso, a sonoridade é cristalina, limpa e com tudo soando em
seus devidos lugares (ou seja, nada dos teclados sobrepondo as guitarras, como
muitos discos de AOR teimam em fazer), com timbres bem definidos e modernos,
além de uma dose de peso que só faz bem ao trabalho do grupo.
Guitarras melodiosas com
riffs ganchudos (e solos muito bem feitos), base rítmica sólida e com peso,
teclados criando ambientações perfeitas, vocais afiados (que lembram um pouco C.
J. Snare em alguns momentos), e uma capacidade de criar arranjos que
seduzem o ouvinte como um beijo da pessoa amada da juventude em um primeiro
encontro. Mas ao mesmo tempo, há momentos poderosos que conquistam os ouvintes,
mesmo que não sejam fãs de Rock.
É um disco que não tem melhores momentos. Todas as
canções são excelentes, em um nível musical absurdo, mesmo não sendo algo que
nunca tenhamos ouvido antes em termos de estilo. Mas “Holding On” (uma típica faixa de abertura poderosa e que gruda nos
ouvidos, com um refrão absurdamente simples de gostar e cantar junto, tudo sobre
uma base rítmica perfeita, e ótimas partes de teclados), a solidez de “Nothing to Lose” (com um ritmo um
pouco mais lento, mas aquela pesada mais pesada, novamente mostrando arranjos
precisos de teclados e vocais nas mudanças de ritmo), as pegajosas “Different State of Mind” (descaradamente
uma mistura de Pop Rock e AOR, mas em uma mistura bem equilibrada e acessível, outra
com refrão marcante e com uma energia incrível) e “All We Need is Faith” (onde temos algo um pouco mais pesado, e com
maior ênfase nas guitarras, sem que a essência AOR seja descaracterizada), a
descaradamente Pop Rock “Miracle”, as
refinadas orquestrações de teclados exibidas na deliciosa “Christina” (mas é bom repararem como as guitarras estão ótimas), a
ambientação melodiosa perfeita criada por vocais e backing vocals em “Straight to the Top”, a paulada AOR “Still Believe in You” (pesada e
grudenta, e com um trabalho muito bom de baixo e bateria), e a “pondo a casa
abaixo” “City Lights” (outra cheia
de energia e uma porretada). E como faixa bonus, ainda temos a linda versão
acústica para “Straight to the Top”.
E é de deixar os olhos cheios de lágrimas ter que deixar alguma das outras
canções de fora, pois o peso, as melodias, os refrães... Tudo nesse disco é
meticulosamente composto para ser grudento, e assim, nos proporcionar prazer.
Dizer que “Creye”
é um forte candidato ao Top10 do ano não chega a ser um pecado. É uma
obrigação!
O chamado Stoner Rock/Metal, em geral, rebusca uma
sonoridade mais orgânica, mais próxima daquilo que se ouve na virada dos anos
60 para os 70, e o mais distante possível de algo lapidado. Isso chega a ser
quase que uma regra fora do Brasil, onde impera a sujeira excessiva proposital;
mas por aqui, a maioria dos grupos do gênero prefere algo mais bem definido, e
embora ainda próximo ao feeling artesanal, nada soa tão exageradamente grotesco
como se faz lá fora (sinceramente, é de virar o estômago o que certos grupos fazem
em termos de gravação porca no exterior). Para alegria de muitos, a “Brazilian
Stoner School” tem seus traços próprios, e o MINISTÉRIO DA DISCÓRDIA, trio de São Paulo, busca fazer algo
realmente diferente do usual. E seu novo trabalho, “ABISMØPORTAL” é um disco muito bom, e que com o lançamento pela Shinigami Records, o levará a um número maior de fãs.
No disco, se percebe que o trio andou evoluindo, pois
junto ao já conhecido invólucro “sabbáthico” de suas composições, o trio
consegue impor algumas sutilezas ao seu trabalho musical. Sutilezas essas que
fazem a diferença, pois existem influências de Rock ‘n’ Roll e Hard Rock
clássico (ouça diretinho os arranjos de “Mensageiros da Desgraça”), alguma
coisa de Punk Rock aqui e ali (reparem bem em “O Que Teria Acontecido à Baby
Jane”), e mesmo cuidados estéticos em termos de arranjos que fogem
um pouco ao desleixo proposital do Stoner Rock. Aliás, desleixo não é com o
grupo, pois se percebe que a dinâmica de suas composições não é algo gratuito
(embora não seja forçado), mas que nasce de uma vontade de sair do ponto comum,
de quebrar regrinhas chatas. E que energia transborda desse disco!
Dessa forma, “ABISMØPORTAL”
é um passo adiante do disco anterior, “Abismo”.
A produção do disco é reta, sem firulas e soa até
mesmo artesanal (não é raro se perceber que a banda não usa bases de guitarra
durante os solos, o que já mostra o lado “live” do trabalho deles). Mas que
fique claro: a crueza que se sente nas músicas vem da escolha dos timbres
instrumentais, e não da gravação, logo, tudo ficou bem compreensível aos
ouvidos. E essa sonoridade mais azeda (mas bem feita) casou bem com as canções.
Já arte do CD é ótima, mostrando algo bem
trabalhado e elegante, alo que vem das letras críticas do grupo.
Musicalmente, o MINISTÉRIO DA DISCÓRDIA mostra personalidade, peso e uma energia
descomunal em suas composições. E embora evitem rebuscar demais o lado técnico
(priorizando assim a espontaneidade), é perceptível uma capacidade de arranjar
as músicas de forma mais elaborada que seus pares de estilo. No fundo,
poderíamos dizer que o Stoner Metal/Rock do grupo é eclético, sem se preocupar
muito com “tem que ser assim”, pois com eles é “do nosso jeito, e dane-se”
(como prova, ouça as orquestrações de “Fuga nº II”). E é interessante ver como o grupo consegue fazer a métrica da
língua portuguesa funcionar bem em suas letras (protestos bem ácidos sobre a
realidade do cotidiano que nos cerca).
O peso bruto e denso de “Portal” (andamento mais cadenciado e empolgante, além
de um refrão muito bom e uma base rítmica bem trabalhada), a empolgante “Mensageiros
da Desgraça” (que possui um jeito mais Hard Rock entremeado com passagens
pesadas e lentas, e sempre com ótimas guitarras), a pegada espontânea à lá “Sabbath
Bloody Sabbath” de “Espelho”, o jeito moderno e quase extremo “Motim
Elétrico” (olhem as passagens de bumbos duplos velozes), as lindas linhas
melódicas da soturna “Fuga nº II” (que solos legais e vocais de
primeira), a velocidade quase Punk Rock de “O Que Teria Acontecido à Baby
Jane?” (uma adrenalina insana com backing vocals bem postados e uma energia
absurda), que são músicas novas, e todas elas ótimas. E é ótimo poder ouvir mais
uma vez “Abrace a Discórdia” (boas melodias, com destaque para o trabalho
bem feito de baixo e bateria), “Abismo” (os riffs soam pesados e
envolventes, com aquela pegada fundamental à lá BLACK SABBATH dos
primórdios), “Supremo Concílio” (há certa dose de acessibilidade
musical, mas sem deixar o peso de fora, e isso adornado por um refrão de
primeira, com ótimos vocais), “Orquídea Negra” (com seu jeito mais
simples de ser), e “Perdidos” (uma canção com melodias introspectivas e dinâmicas,
com belos toques de Hard clássico graças ao velho Hammond), canções presentes
no EP “Abismo”, de 2016.
No mais, a pregação do MINISTÉRIO DA DISCÓRDIA se mostra evoluída, sendo uma banda que fãs
de BLACK SABBATH, SOUNDGARDEN, MONSTER
MAGNET e outros no estilo irão amar. Mas “ABISMØPORTAL” é um disco feito para todos os fãs de Metal,
sem radicalismos.