Estar ativo nos dias de hoje é sinal de força de vontade,
uma vez que o cenário mundial tem se mostrado cada vez mais árido de
criatividade e combalido pelos downloads, fazendo com que as bandas tenham que
tocar cada vez mais e ter cada vez menos tempo na produção de material para
seus discos. Alguns parecem não estar nem aí, e mandam discos novos de tempos
em tempos.
Mas uma curiosidade assaltou os fãs do grupo alemão DESTRUCTION neste ano: depois de anos
como trio (basicamente, desde o retorno em 2000), a eles mais uma vez tornaram-se
um quarteto com a entrada de um segundo guitarrista Damir Eskić, logo, como eles soariam?
A resposta é dada por “Born to Perish”, décimo-primeiro
disco do agora quarteto desde seu retorno à ativa. E que acaba de sair no
Brasil pela parceria entre a Shinigami
Records e a Nuclear Blast Brasil.
Análise geral:
Não seria uma heresia dizer que o quarteto é um AC/DC Thrash Metal, pois a fórmula é a
mesma que estão usando desde seu retorno com “All Hell’s Break Loose”
(2000): um Thrash Metal agressivo, cheio de influências de Hardcore e Metal
germânico (especialmente nas partes mais refreadas), boas melodias, refrães
marcantes e uma estruturação técnica que soa simples aos ouvidos dos fãs,
embora o nível de detalhamentos seja grande.
Se por um lado optaram por não ousarem buscar inovações como no
passado, pode se dizer que o grupo mostra energia e personalidade para lidar
com os novos tempos.
Arranjos/composições:
Não dá para não bater palmas nesse aspecto.
Usando de experiência, o nível de detalhamentos é alto, com
mudanças rítmicas bem vindas, encaixe perfeito dos vocais sob a colcha instrumental
do grupo, riffs raçudos e que grudam na memória do ouvinte, solos bem feitos
(onde se nota que existe diversidade, pois o jeito de Damir solar difere do de Mike),
e a solidez da base rítmica é óbvia (a entrada de Randy Black deu maior peso e diversidade técnica à bateria). Nada
de novo em termos de DESTRUCTION,
mas sempre de ótimo nível.
Qualidade sonora:
Mais uma vez, como ocorre desde “Metal Discharge” (de
2002), V. O. Pulver trabalha com o
grupo, e novamente assina a produção.
Basicamente, o quarteto é um dos poucos de sua geração que
conseguiram se adaptar aos novos tempos, pois sua música soa moderna e
vibrante, mas com clara referência aos velhos tempos. Tudo isso em uma produção
sonora que soube explicitar a agressividade de seu instrumental com tons mais
bem delineados e claros aos ouvidos (mas que poderiam ser melhores para o
baixo).
Arte gráfica/capa:
Nem é preciso dizer que Gyula Havancsák fez uma capa bonita e chamativa. Mesmo com
contrastes de cores simples, tudo ficou muito bom, agressivo e referenciando ao
título.
Destaques musicais:
Apesar de longe do ápice criativo do grupo, “Born
to Perish” ainda é um disco do DESTRUCTION
em essência, cheio de ótimos momentos que divertirão seus fãs.
As melhores: a pegajosa, rápida e técnica “Born
to Perish” (exibição de gala da bateria e das guitarras, verdade seja
dita, pois riffs e solos são ótimos), as igualmente pegajosas e com melodias
mais claras “Inspired by Death” (baixo e vocais em grande performance,
resgatando um pouco o “feeling” do que se ouve em “Release from Agony”) e “Betrayal”
(boas mudanças de ritmo), o lado mais influenciado pelo MOTÖRHEAD e pelo Punk Rock que aflora em “Filthy Wealth” (onde
alguns toques subjetivos da Escola Germânica de Metal aparecem), a variada “Butchered
for Life” (o início é como uma balada densa e melancólica, mesmo com o
timbre naturalmente agressivo de Schmier,
mas logo explode em uma canção bruta e ríspida, e se preparem, pois partes mais
lentas aparecerão em outros pontos dessa canção), e o ataque brutal e opressivo
de riffs insanos em “Fatal Flight 17”. Mas o disco é bom como um todo, ainda mais com
a faixa extra, “Hellbound”, um cover para um velho hino do TYGERS OF PAN TANG, que exalta o lado
do Metal tradicional que o DESTRUCTION
carrega desde sua origem.
Conclusão:
Óbvio que não se pode dizer que “Born to Perish” seja o
melhor disco do grupo, longe disso, mas serve como uma preparação futura quando a formação atual estiver consolidada e ajudando a compor.
Mas pode-se dizer que é um item obrigatório
para os fãs da banda, e que vale a audição e aquisição.
Nesses tempos em que crenças pessoais e ideologias
militantes assolam o Metal, muitas bandas têm metido os pés pelas mãos e caído
em arapucas. Por isso, pouquíssimos são aqueles que poderiam entrar no time de
SEPULTURA, ANGRA e KRISIUN como bandas brasileiras que têm relevância no
mercado internacional. E a idéia é simples: todos têm aniquilado seu potencial
comercial por motivos a serem dissertados nesse texto.
Por “potencial comercial”, entenda-se a capacidade de uma
banda de Metal tem de crescer sob certas condições, e assim, alcançar sucesso
comercial (ou seja, em vendas de discos e merchandising). Ou seja, é quanto a banda pode crescer tendo os devidos investimentos.
Ilustrando o que quero dizer por meio de alguns exemplos históricos.
Nos anos 80, era muito comum que bandas que vinham de selos independentes
ter uma sonoridade com energia e mais crua, e ao entrarem em uma grande
gravadora, sofriam alterações. As gravadoras contratavam produtores para
moldarem (o mais certo seria “polir”) a música de determinado grupo ao público
vigente, o que era uma estratégia que podia render bons frutos, mas que também
poderia significar fracasso. Nisso, as gravadoras estavam tentando maximizar o
potencial comercial desses grupos, mas obviamente erravam mais que acertavam.
Não era uma questão bem X mal, mas meramente financeira.
RAVEN: Este é um ótimo exemplo no sentido negativo de potencial
comercial.
RAVEN antes da era da Atlantic Records
O trio inglês vinha em uma ascensão em termos de público desde
que lançaram “Rock Until You Drop”, e com 3 discos, era uma potência dentro
do underground, tanto que o METALLICA
foi banda de abertura na época da “Kill
‘em All For One Tour”. Mas bastou entrarem em uma “major” (a Atlantic Records) que fizeram “Stay
Hard” (em 1985, para se exato), um disco que assustou os fãs da época, pois
era bem mais voltado ao que fazia sucesso no mercado norte-americano (ou seja,
Hard/Glam como MÖTLEY CRÜE, RATT e
outros) que a seu jeito Hard/Heavy clássico. Foi um golpe duro aos fãs mais antigos, e a situação piorou ainda mais
com “The
Pack is Back” (de 1986). A coisa foi tão feia que a banda, que poderia
ter sido um novo IRON MAIDEN ou JUDAS PRIEST em termos de sucesso (sim,
eles tinham potencial para tanto) ficou apequenada pelo resto de sua carreira.
Se de um lado perderam muitos fãs (que os trocaram por bandas emergentes
daqueles anos), não conseguiram criar uma base sólida de novos fãs que os
permitissem crescer mais. O potencial comercial do grupo (que não era pequeno) foi
perdido por uma enorme falta de estratégia de como lidar com a banda e sua
música. E se completou com a perda do “timing”, pois a NWOBHM estava perdendo
forças e o Thrash Metal começava a crescer e ter apoio das gravadoras grandes.
Basta ver o sucesso comercial de “Master of Puppets”, também de 1986).
O RAVEN teve que se contentar em ser
uma banda “Cult” pelo resto de sua existência, mesmo fazendo ótimos discos de
1987 para cá.
Capa de “The Pack is Back”. Reparem na diferença de visual entre o passado e esse disco. Mais Glam impossível.
Outros como PICTURE
(tanto que “Traitor”, de 1985, eclipsou quase tudo que a banda havia feito
de bom antes), SAVATAGE (“Fight
for the Rock”, de 1986 só não causou estragos piores porque, um ano
depois, lançaram o ótimo “Hall of the Mountain King”, mas
nunca cresceram o que podiam) caíram nessa mesma arapuca. O hoje chamado
clássico do ACCEPT, “Metal
Heart” (de 1985), teve uma recepção cheia de narizes torcidos por parte
dos fãs naqueles tempos por conta de elementos mais acessíveis em suas músicas.
Uma clara mostra que os fãs desse tipo de Metal não aceitavam mudanças, e como o próprio público estava mudando (lembrando: a NWOBHM e bandas de Metal tradicional em geral estavam perdendo espaço para o Thrash Metal, enquanto o Hard/Glam e o AOR reinavam supremos nas paradas de sucesso).
Exemplo positivo: METALLICA.
RAVEN e METALLICA durante a “Kill ‘em All For One Tour”
Talvez seja o maior exemplo de todos de quem sabe aproveitar
oportunidades.
Disco após disco, sempre cresceram até o sucesso de “Metallica”,
mas se observarmos direito, eles sempre usaram estratégias de marketing
interessantes, e nunca perderam o “timing”. Estavam sempre no lugar certo, na
hora certa e fazendo a coisa certa. Mesmo as idas na direção oposta (o fato de
não gravarem vídeos, os discursos contra o Hard/AOR que infestava o cenário dos
EUA), e mesmo as brigas com Dave Mustaine na imprensa e a (infeliz) passagem de Cliff Burton os ajudou. Óbvio que tudo isso sempre embasado em músicas de alto nível. Aliás, a banda não fazia concessões, era do jeito deles ou não era (apenas em “Metallica” isso foi mudado, pois a visão de Bob Rock os ajudou a chegarem no próximo nível).
O mesmo vale para KISS
(ou acreditam que a presença de Bob Ezrin
na produção de“Destroyer”, a guinada para o Hard/Glam nos anos 80, o final da
fase mascarada, e mesmo a turnê com a formação original e usando as maquiagens
não foram estratégias bem pensadas?),
IRON MAIDEN (na biografia “Run to the Hills” se vê como as
presenças de Rod Smallwood e de Martin Birch foram importantes em
termos de estratégia e mesmo de música) e outros que estão ou no time dos
gigantes ou dos grandes. Mesmo o AC/DC
com toda sua atitude ‘fuck you’ teve que se curvar diante da sabedoria comercial
de “Mutt” Lange (duvido que queriam ter que trabalhar em empregos comuns na Austrália depois de terem tantos discos lançados). É preciso algo além
da música em si para se chegar lá. É preciso estratégia de marketing, e tudo mais que
for possível para que a banda atinja o maior número de fãs possível. Mesmo
algumas polêmicas podem ajudar (Ozzy
que o diga).
Estabelecida a definição de potencial comercial e seus exemplos, podemos
analisar um momento histórico problemático: a atual fragmentação do cenário nacional em torno de ideologias políticas. Elas podem ser abordadas como um problema severo e perigosas ao potencial comercial de qualquer grupo (menos os que são gigantes, pois estão acima do bem e do mal).
No Brasil, vemos um tiroteio ideológico de todos os lados.
Uns exigem que as bandas se postem politicamente (como se alguém fosse obrigado
a isso); o outro lado, por sua vez, defende que o Metal não possui uma
ideologia partidária. Em ambos os casos, um bom profissional diria que não se
deve cair nesse tipo de armadilha, justamente para não se limitar em termos de
público. Em uma visão simplesmente pragmática em termos de marketing, não existem fãs de esquerda ou direita em termos financeiros, apenas
fãs que pagam pelo trabalho das bandas. Repetindo de forma mais simplificada e clara: não existem fãs opressores e nem fãs oprimidos, existem fãs!
Vejam bem: no momento em que os ânimos estão divididos entre
esquerda e direita, exigir que uma banda se posicione de um lado nessa briguinhas de crianças no pátio de escola (perdoem-me ser sincero, mas é a impressão que tenho) é desagradar um ou outro
segmento. A conseqüência óbvia é a perda de uma fatia de público, e isso em uma
época em que a venda de discos e audições via streaming não rendem quase nada
para os grupos. Estes sobrevivem com venda de merchandising e cachê de shows
(aquelas que são suficientemente grandes para tanto), logo, isso significa a
perda de dinheiro, e assim, a banda vai definhando até sumir de cena. Sinto
muito, mas sentimentalismos underground (e ideologias) não pagam as contas... E ninguém fica gastando do próprio bolso ad infinitum sem ter alguma compensação, a menos tenha ótimas condições (o que o feria opositor de um dos segmentos citados).
Se isso ocorresse nos anos 80, no auge do poder das grandes
gravadoras, é certo que alguém delas daria uma bela bronca em engraçadinhos do tipo. Sim,
isso daria um belo chute nos fundilhos de quem queria se posicionar. A
gravadora queria lucrar, logo, nada mais simples que dispensar os insatisfeitos com suas decisões, pois eles, se não vendem, são dispensáveis.
Sendo sincero: todas as bandas que se meteram nesse balaio
de gato ideológico deram um imenso tiro no pé (se é que sobrou algo do pé depois de tantas palhaçadas). Em uma perspectiva futura, o número
de audições nas plataformas digitais diminuirá, e a mesma coisa pode ocorrer
com a presença do público em shows. Se as mesmas já tocam fora, é possível
minimizar esse dano, mas as restritas ao Brasil vão sentir isso mais duramente. Danificaram
a potencialidade de angariar público, ou seja, de aumentar a receita financeira
que oxigena a carreira do grupo, pois nenhum fã gosta de ser ofendido em suas pessoalidades (ao qual todos têm direito, mesmo que o leitor discorde disso). Talvez
por isso uma das bandas que mais se posicionou politicamente antes do pleito do ano passado tenha encerrado as
atividades: viram a conseqüência dos próprios atos. Tanto é assim que viraram
piada nas redes sociais, até bem mais que foram apoiados. Perderam mais que
ganharam, não importam ideologias.
Óbvio que este autor sabe (e viu) da tal lista de bandas ditas
“antifas” que anda rolando pela internet, e que traduzindo em miúdos, são as que se posicionaram politicamente
em prol da esquerda. Por tudo que posso ver, o encolhimento comercial de cada
uma delas é questão de tempo. Inclusive os músicos estão marcados por uma
enorme parcela do público, que pelo visto, os perseguirá de tal forma que tudo
que tentem pode dar burros n’água. Repetindo: comercialmente, uma banda não tem
fãs de esquerda ou direita, mas tem fãs. Ao autor da lista, se ler estas palavras, digo que seu tiro saiu pela culatra: o número de pessoas que afirmou que usará esta lista para evitar essas bandas é enorme. Jogou contra o próprio patrimônio. Se tem banda, se é produtor, enfim, alguém que depende um pouco que seja de capital de giro, errou, ainda mais em tempos que sigilo é algo praticamente inexistente em redes sociais.
Há aqueles que desejam ficar fora dessa estória, inclusive
com declarações óbvias. O fato de KORZUS,
TORTURE SQUAD e outros estarem com essa posição neutra significa que estão, muito
provavelmente, preocupados com suas carreiras a longo tempo, e porque (sabiamente) discordam de ambos os lados nessa peleja cômica (ambas as bandas falaram isso com todas as palavras nos eventos em que existiram manifestações políticas por parte dos fãs). E como dito antes,
ninguém tem que ter posição política explícita, a lei garante isso. Se
posicionar pró ou contra o atual governo do Brasil, pró ou contra os
anteriores, vai terminar em desgaste com o público e perdas que podem não ser reparadas, a
menos que as bandas tenham suporte financeiro do exterior (ou seja, já tenha público cativo no exterior).
TORTURE SQUAD
O melhor conselho: deixar que a música falar por si (para as
bandas que gostam desse tipo de tema) sem alimentar polêmicas desnecessárias nesse assunto, e não fazer de seus shows comícios. Aliás,
uma crítica: qual banda dessas que foi chamada para fazer comício político? Há
anos o Metal sempre foi ignorado por partidos e candidatos políticos, enquanto
pagam fortunas por artistas mais populares. Sim, nenhum deles vai lá sem ganhar
grana ou alguma divulgação (lembremos que a MPB está, criativamente falando, falida há anos, logo, seus
artistas precisam se mostrar vez por outra, pois musicalmente é um estilo
esgotado). Deixem de ser bobos, façam música, toquem e pronto, ninguém quer
saber de suas vidas ou ideologias, quanto mais de suas opiniões partidárias ainda mais quando
tentam enfiar isso goela abaixo dos outros, em uma mostra de que não sabem viver em democracia e não respeitam o direito de expressão e pensamento alheios. Querem para si, mas nunca para quem não bate palmas para maluco dançar nessa tragicomédia em que transformaram o cenário.
KORZUS
Pensem: existem conservadores e liberais, pessoas de direta e esquerda,
entre membros de bandas famosas. Aliás, não é porque apóia seu pensamento
político que o músico/grupo se torna bom (ou se torna ruim por discordar de você). Óbvio que muitos músicos do primeiro
time já têm públicas suas opções políticas (ou permitem as pessoas pensar dessa
forma), mas eles já estão acima do bem e do mal. Kirk Hammet, Dave Mustaine, Alice
Cooper, Gene Simmons, Kerry King... A lista é longa, mas vejam os nomes e
de que bandas eles são: só de grupos já consagrados, que qualquer polêmica que
pense o leitor, não as atinge. E isso não se aplica a bandas que precisam criar
uma sólida base de fãs, que quase têm que mendigar “likes” e visualizações nas mídias sociais. Tapinhas nas costas de correligionários não bancam sua banda, mas fãs.
Óbvio que todos podem (e devem ter) um pensamento político,
e mesmo partidário, pois é direto constituído. Agora devem manter isso em seus devidos particulares, sem agredirem a outros (como teimam em fazer no Brasil) por pensarem diferentes, pois fãs agredidos são fãs que não pagam pelos seus trabalhos, são fãs que não vão mais aos seus eventos, não usam suas camisas, não ouvem suas músicas. E se serve de termômetro,
são menos “likes” em suas páginas no Facebook.
Se alguém viu partidarismo aqui, lhes direi apenas para
tirarem a venda dos olhos. Estou falando de aspectos financeiros e adjacências,
e sendo mais honesto que muitos bobocas políticos são. Não bato palmas para
maluco dançar como alguns professores falidos fazem, te vendendo luxo como lixo em uma série de mentiras em que eles mesmos não acreditam. Desculpem, mas ninguém é fascista-machista-homofóbico e outros gritos de ordem vazios só porque discorda de vocês e de sua agenda ideológica, e nem me venham com perguntas estilo “você acha que...”, pois não caio em arapucas do tipo. Este autor é PRÓ METAL, entenderam? P-R-Ó-M-E-T-A-L, letra por letra, para ver se soletrando suas mentes emperradas pegam no tranco! Não preciso mandar mensagens subjetivas, mando na lata!
Cabe um testemunho: nos anos 80, existiam diferenças
políticas entre os fãs. Isso sempre existiu. O que não existia: NINGUÉM tretava
com o outro por causa disso. Basicamente, a geração dos nascidos nos anos 70 parece
ter, por conta da educação familiar, entendido o bom e velho “me respeite para
ser respeitado”. Não são todos (tem uns velhos por aí que andam aprontando das suas), mas era mais ou menos por aí.
Pronto, tudo preto no branco. Agora, se querem continuar com isso,
sigam em frente. Escrevi e avisei, e não posso evitar que se destruam, mas não me envolvam
em sua pantomima infantil e cega. Não quero e não vou participar de seus
joguinhos de intrigas, fofocas e outros!
Encerrando: a banda ter os pés no chão e avaliar suas
possibilidades, o público-alvo e a buscar formas de despertar a curiosidade
para começar a estender sua base de fãs, e evitar mexer em temas que dividam seu público
(como política, militâncias e partidarismos). No mais, que cada um cuide de sua
carreira conforme desejar.
No mais, o Metal é para todos, quer gostem, quer não gostem... Aliás, aos que não gostaram, a porta da rua é serventia da casa.
O final dos anos 90 viu o retorno das vertentes de Metal que faziam sucesso no underground nos anos 80. Muitas e muitas bandas passaram a fazer algo naqueles moldes, fugindo cada vez mais da modernidade (o que muitas vezes pode acabar em desastre, pois a negação do presente pode levar a concepções errôneas e prejudiciais). Pode-se, inclusive, dizer que o Brasil é um dos pioneiros nisso.
E do Rio de Janeiro, mais um adepto do estilo: o quarteto FACING FEAR, que após o EP “Lutaremos Pelo Metal” de 2017, chega com seu primeiro “full length”, chamado “Ana Jansen”.
Análise geral:
O quarteto toca o bom e velho Heavy Metal tradicional dos anos 80, com claras referências a bandas como JUDAS PRIEST (especialmente a fase entre “British Steel” e “Ram It Down”) e IRON MAIDEN (em sua fase mais crua, entre “Iron Maiden” e “The Number of the Beast”), algumas coisas da NWOBHM e do Metal Germânico (em alguns momentos, a influência de ACCEPT é bem clara), e um pouquinho de MANOWAR nas partes mais cadenciadas. É óbvio que o quarteto tem que lidar com uma gama enorme de clichês do gênero, mas estão em um bom momento, pois suas melodias mostram personalidade, além de saberem criar refrães marcantes e usam de uma técnica instrumental longe de ser rebuscada e pedante (mesmo porque não é o foco deles). Ainda podem ir mais adiante, mas estão em bom nível.
Ah, energia? Eles mostram muita, mais muita mesmo, e em todo o disco!
Arranjos/composições:
Como já citado, a banda não usa de uma aproximação técnica exacerbada, nada de firulas desnecessárias. Os arranjos são até simples de assimilar, embora mostre que eles sabem o que querem de suas canções. Não há tanto polimento em termos de composição, tendo em vista que a banda segue os moldes onde a crueza sonora e a energia, bem como o lado pegajoso das melodias, é o mais importante.
Ou seja, é espontâneo, melódico a ponto de ser pegajoso, com ótima energia, e assim, as canções são arranjadas da forma mais correta possível em relação ao estilo que fazem.
Qualidade sonora:
Eis o ponto onde a banda pecou em “Ana Jansen”.
Óbvio que eles buscaram ter algo mais orgânico e artesanal em termos sonoros (tanto que existe um feeling “live” permeando as canções), mas exageraram na crueza. Não chega a comprometer a audição do disco, mas poderia ser melhor em termos de definição sonora. Não que o trabalho de Luke D. Couto na mixagem seja ruim, mas a música da banda pede mais clareza e definição.
Arte gráfica/capa:
Eduardo Untura fez um trabalho muito bom em termos de arte gráfica, com uma capa bem feita, e se os olhos não enganam, é uma referência a “Abigail”, de KING DIAMOND, mas misturada com elementos bem brasileiros (uma vez que Ana Jansen é um personagem mítico que assombra São Luís do Maranhão).
FACING FEAR ao vivo
Destaques musicais:
Em relação ao EP anterior, a banda deu uma equilibrada em suas composições, e o uso do inglês lhes deu a possibilidade de expandir seu universo musical.
As melhores canções são: “Hell’s Killer” (um fluxo insano de energia crua flui durante toda sua execução, com ótimas melodias e refrão de primeira, e guitarras faiscando riffs muito bons), o bombardeio rítmico que se ouve em “Tragedy/The Lonely Soldier” (os tempos são simples, mas se percebe a solidez rítmica de baixo e bateria) e em “Until the End” (bom uso de vocais e backing vocals, novamente com melodias certeiras), a força pegajosa de “Run for My Life” e de “War of Lies” (como já bem estabelecido, as melodias do grupo são de fácil assimilação, transformando em um prazer a audição dessas duas, e que guitarras), e a mais cadenciada e icônica “We Are Facing Fear” (onde as influências de ACCEPT dos tempos de “Breaker” e “Restless & Wild” ficam bem claras nas harmonias e tempos, mostrando mais uma vez como baixo e bateria são eficientes em criar uma base rítmica coesa). Mas é bom ter em mente que “Ana Jansen” é um disco para ser ouvido como um todo.
Óbvio que o FACING FEAR ainda precisa acertar a mão na produção da próxima vez (soar mais limpo e definido não iria tirar a energia de suas canções), e os vocais podem melhorar (Terry tem bons timbres, mas tem potencial para fazer ainda melhor), mas por agora, “Ana Jansen” é um disco muito bom, e mostra uma promessa começando a despontar no cenário nacional.
Falar do
cenário Metal da Grécia nos dias de hoje é ter a certeza de que o país é um
celeiro de bandas novas com potencial. Mas isso mostra o quanto os nomes fortes
do país criaram uma sólida base e uma estruturação que permite aos fãs e bandas
expandirem suas garras.
Nos dias de
hoje, o grupo de maior aceitação de lá é mesmo o SUICIDAL ANGELS, quarteto de Thrash Metal de Atenas que vem
crescendo a passos largos desde “Sanctify the Darkness” (de 2009), e
que retorna à carga total, pois acabam de lançar seu mais recente disco, “Years
of Aggression”.
Análise
geral:
O forte do
grupo é saber evoluir sem perder de vista o que é, ou seja, qual sua
identidade: um grupo de Thrash Metal com forte influência da escola germânica
do gênero, mas aberto a nuances do estilo vindas dos EUA, e mesmo alguns sutis “inserts”
de Death Metal.
Se em “Division
of Blood” (seu disco anterior, de 2016) a banda mostrava algo mais
voltado ao seu passado em termos de sonoridade e estruturação harmônica, em “Years
of Aggression” eles resolveram rebuscar o lado mais limpo e
experimental de “Divide and Conquer” (de 2014), ou seja, a busca por algo mais
refinado e encorpado, com melhoras nas ótimas melodias e boa técnica
instrumental, mas sem perder o jeito pegajoso e bruto que sempre tiveram.
Pode-se dizer
que apesar de seu claro apelo “old school”, o sétimo disco do quarteto vem para
dar um passo decisivo em direção ao futuro.
Arranjos/composições:
Mantendo a
energia de sempre (que faz o nível de adrenalina do ouvinte chegar às alturas,
bem como os medidores de volume não saem do máximo), fica claro aos ouvidos que
houve evolução no grupo: se antes a banda priorizava demais os ritmos mais
rápidos, cada vez mais aprende as vantagens dos tempos em velocidades mais
baixas, e como eles permitem uma maior diversidade técnica.
Se armando
com refrães que grudam nos ouvidos, boas mudanças de tempo, arranjos que se
encaixam perfeitamente uns nos outros, não tem como não admirar o que eles
estão fazendo nesse álbum.
Qualidade
sonora:
Um dos
segredos de “Years of Agression” é justamente sua qualidade sonora.
Sendo gravado
em dois estúdios (no Zero Gravity
Studios na Grécia, gravaram vocais, guitarras e baixo, enquanto as partes
da bateria foram feitasno Soundlodge
Studios na Alemanha), com a mixagem assinada por Jens Bogren e a masterização por Tony Lindgren, novamente o grupo opta por algo moderno e limpo, mas
capaz de manter a agressividade em evidência.
Mas isso não
significa que está soando artificial. Não, graças à escolha de timbres
instrumentais agressivos (embora bem definidos), o que flui das coesões é
energia em estado bruto.
SUICIDAL ANGELS (Fonte: página da banda no Facebook)
Arte
gráfica/capa:
Novamente o
grupo trouxe Ed Repka para fazer a
arte da capa, e novamente, uma idéia subjetiva que remete ao título do disco.
Mas para quem já conhece o trabalho de Ed,
sabe que sempre é algo de alto nível.
Destaques
musicais:
Talvez “Years
of Aggression” seja o melhor disco da banda até os dias de hoje, tendo
em vista que a inspiração andou alta durante o processo de composição.
“Endless War” é uma canção rápida, cheia de todos
os elementos já bem conhecidos da banda, especialmente um trabalho muito bom
dos vocais (pois o timbre natural de Nick é bem agressivo), além de baixo e bateria
estarem em alto nível (especialmente nas conduções nos dois bumbos). Os
andamentos começam a mostrar mudanças em “Born of Hate”, que é cheia de
arranjos melódicos nas guitarras (que riffs raçudos e de bom gosto). Com tempos
mais cadenciados (embora algumas partes rápidas estejam presentes no refrão), a
agressividade natural de “Years of Aggression” fica evidente
aos ouvidos, mas ao mesmo tempo, é uma das canções mais grudentas do disco, e
esses elementos surgem mais uma vez na excelente “Bloody Ground” (outra
com guitarras maravilhosas, especialmente nos solos melodiosos e bem feitos),
outra canção excepcional. Melodias e a velocidade de andamento já bem conhecida
do grupo surgem em “D.I.V.A.”, com tempos mais simples. Já “From All the One” mostra
um trabalho técnico mais rebuscado sob uma colcha de andamentos que são na
maior parte lentos, e assim, baixo e bateria se sobressaem bastante, e eles
tornam a se destacar em “Order of Death”, outra que também
transita sob tempos não tão velozes. Mas a velocidade cresce novamente em “Τhe Roof of Rats” (refrão e vocais em ótima forma, mas
que guitarras). E fechando, uma canção longa e de tempos lentos e uma
ambientação fúnebre, “The Sacred Dance with Chaos”, que
tem momentos limpos incríveis, onde fica evidente a fluência e diversidade
técnica do grupo.
Infelizmente,
“Years
of Aggression” tem pouco mais de 41 minutos de duração, pois merecia
mais. Mas nada que um bom “repeat” não resolva.
Conclusão:
O SUICIDAL ANGELS não decepciona, e “Years
of Aggression” vem para estar entre os melhores discos do ano, bem como
tem tudo para levar o quarteto a outro nível de popularidade.